sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

 Voltei a concorrer ao concurso de Contos de Natal da BLCS.

Depois de ter vencido por três anos consecutivos, desta vez fiquei a ver passar navios. Logo agora que me tinha habituado a vencer! Partilho com vocês o conto, aviso já que é duro, mas foi assim que me saiu, cru e duro como a vida.

 Desta vez o tema era: Paz e direitos humanos.

"A Guerra começa antes do primeiro disparo: a guerra começa neste processo de desumanização do outro. E a literatura é uma fonte de resistência contra este processo de desumanizar o outro." Mia Couto, em entrevista para a TV Brasil, 2023.

E este foi o conto que escrevi:

A Irmandade

Em tempos de trevas procuramos a luz. A luz do dia é fácil de seguir, mas quando os dias se fazem noite, é difícil ter quem nos alumie. Às vezes um livro. Uma leitura pode-nos abrir esse sol, mas os livros não servem só por si se não praticarmos na relação com o outro. Um cavalo, numa manada, segue o líder cegamente, mesmo que seja um mau líder. Os filhos seguem os pais. Se os pais forem maus líderes, a sina pode perpetuar-se. Mas se um dia alguém consegue sair dessa chafurdice, se tem a sorte de poder ser e pensar diferente, é catapultado para um outro entendimento e para uma nova forma de ser. As feridas antigas deixam cicatrizes. Ainda podem abrir e sangrar, mas esses episódios vão-se tornando menos frequentes.

Esta é a história de uma mãe, uma mãe igual a tantas outras, que trabalha, que tem os filhos a seu cargo e que se esquece de si. O papel dessa mãe é proteger os filhos dos acessos de fúria do marido, das suas bebedeiras e dos amigos do jogo.

Era ao amanhecer, naquele ambiente de fumo, que a mãe preparava as marmitas para os gémeos. Nessa altura o pai ia deitar-se no sofá, bêbado e drogado. Muitas das vezes o frigorífico encontrava-se vazio. Durante a noite tinha comido tudo com os amigalhaços e não sobrava muito para fazer as sanduíches para os filhos levarem para a escola. Deixem filhos, dizia a mãe, a caminho passaremos no supermercado. E lá saíam de casa, a mãe para o trabalho e os filhos para a escola. Regressavam já noite e a história repetia-se.

Às vezes o pai estava sóbrio, prometia mudar, que acreditassem, nunca mais tocaria na bebida, nem no tabaco. Nessas alturas tomava banho, barbeava-se, dormia durante a noite, coisa rara, e durante o dia saía a procurar emprego. Quando conseguia trabalho chegava a casa com prendas para as crianças e flores para a mulher. A mulher esperava para ver até quando. Mas era sol de pouca dura. Não raras vezes voltava a cair nos vícios.

Um dia chegaram os três a casa e como de costume a besta estava estendida no sofá. Jantaram e foram dormir. A besta continuava inerte e inerte ficou até a mulher se aperceber que já não tinha vida. Os filhos lamentaram a sua morte, mas não muito. A mulher lamentou a sua morte, mas não muito. Depois de enterrado o morto, recomeçaram as suas vidas. O sofá velho e roto foi para o lixo. Compraram um novo e todos os dias, depois do jantar, sentavam-se os três, cada um com o seu livro.

Quando eram pequenos, depois do jantar, para fugirem aos devaneios do pai, a mãe levava-os para o quarto e contava-lhes histórias. A mãe lia-lhes livros de Sophia de Mello Breyner Andersen. Com “A Floresta” entraram num mundo mágico e perceberam que as boas ações são sempre recompensadas. Quando a mãe lhes leu “O Rapaz de bronze”, aprenderam a apreciar a beleza nos pequenos detalhes do quotidiano e a sua vida ficou mais colorida. Na companhia da “Fada Oriana”, os seus dias tornaram-se mais leves, percebendo que até a fada, um ente mágico, se tinha desviado dos seus deveres. Mas na história, a fada pôde sanar as suas faltas e o perdão chegou quando se esqueceu dela própria para salvar a pobre velha. Para o seu pai, esquecido de si e esquecido deles, parecia não haver perdão. Com “O Cavaleiro da Dinamarca” e “A noite de Natal”, passaram a valorizar esta tão bela quadra de união e convivência familiar, algo que só vivenciavam nas histórias. Raras vezes se recordavam dessa celebração. Durante as férias de Natal, a mãe inscrevia-os numa colónia de férias na neve, para que pudessem ficar afastados do ambiente tóxico da casa.

Assim foram crescendo.

Com o passar dos anos tornaram-se belos jovens adultos e agora, que o pai tinha partido, nunca era demasiado tarde para tentar perdoar e buscar a paz nas relações perdidas. Sabiam ser demasiado tarde para o seu pai, mas ainda assim decidiram escrever-lhe uma carta. Era dia de Natal e depois da carta escrita foram juntos levá-la ao seu túmulo. A carta rezava assim:

Querido pai,

não foste um pai querido. Mesmo quando parecias melhor e paravas de beber tínhamos medo de ti. Sim, porque a qualquer momento mudavas de humor e punhas-te a gritar com a mãe e connosco. Sabemos que não o fazias por mal, só que não conseguias controlar-te. Quando caías em ti pedias muitas desculpas e punhas-te a chorar como um desgraçado. Desgraçado é a palavra certa para ti. Tiveste uma vida desgraçada. A mãe contou-nos como o teu pai era um tirano. Que te batia e te tratava mal. Eras a ovelha negra, só porque tiveste uma doença grave em pequeno que fez de ti o mais fraco. O nosso avó, que felizmente já não fez parte das nossas vidas, acabou com a tua. Tu não tiveste a força de te levantar. Tiveste muita sorte por teres encontrado a mãe. Sem ela serias um vagabundo da rua. Com ela foste um vagabundo com teto. Gostaríamos que não tivesses morrido, que conseguisses dominar a tua cabeça, a tua raiva e que nos pudesses ter visto crescer. A mãe sempre nos contou histórias que nos ajudaram a crescer. Nós um dia também iremos contar a tua história. A mãe deu-nos amor pelos dois e para nós foi o bastante. A mãe sofreu em silêncio e pôs cara alegre quando estava desfeita. Nós sempre tivemos a escola e os nossos amigos. Durante o dia quase esquecíamos o peso que sentíamos por te ter como pai. Ao chegar a casa e te ver no sofá a dormir, a casa tão cheia de fumo que até fez escurecer o teto da cozinha, voltávamos à triste realidade. A mãe sempre nos tentou proteger, mas bem víamos que passavas a noite com os teus amigos na cozinha a beber e a fumar. Ela levava-nos para o quarto e contava-nos histórias. Foi graças à mãe e às suas histórias que hoje somos quem somos. Sofremos muito, a mãe sofreu muito e ainda continua a sofrer. Mostrou-nos o álbum de fotografias de quando vocês casaram. Eras um belo homem. Os teus olhos azuis profundos pareciam mostrar inteligência e delicadeza. Ninguém sabe onde te perdeste. A mãe acha que foi a droga e as más companhias. Sabes o que nos dói mais? Nós achamos que nos amavas, de uma maneira estranha, mas amavas. Como é que esse amor não foi forte o suficiente para te arrancar do buraco onde vivias? E o amor à mãe? Transparece nas fotos o teu grande amor por ela. Foi a tua mulher. Fez de mãe, melhor amiga, enfermeira e muito mais. Só não entendemos como pôde aturar-te tanto tempo. Achamos que teve pena que acabasses numa valeta. A mãe é a nossa heroína. Estamos-lhe gratos por tudo o que sempre fez por nós. A ti estamos gratos pela vida, sem ti não teríamos nascido, mas não foste importante para nós em mais nada. De resto, só nos destruíste. És o responsável por termos de fazer anos de terapia, que esperemos que resulte, pois não queremos repetir nas nossas futuras famílias, o que nós passamos. Talvez voltemos cá um dia para te apresentar a conta do psicólogo.

A mãe não sabe o que está escrito nesta carta. Não quis ler. Ela sabe tudo o que nós sentimos, só de olhar para nós. Tu nunca olhaste verdadeiramente para nós. Não te suportavas a ti próprio, quanto mais outros seres, que por acaso foste corresponsável de pôr neste mundo. Achamos que não aguentaste a pressão, talvez querias a mãe sempre só para ti, como se fosses o único. Mas não eras o seu filho, eras o seu marido e comportaste-te como um canalha. Fizeste-nos conhecer o sofrimento desde muito cedo. Talvez te devíamos agradecer por nos teres preparado tão bem para a vida. Agora sabemos o que não queremos.

Com a ajuda da mãe estamos a descobrir o que é a paz. O que é a tranquilidade de estarmos sentados no sofá a ler um bom livro e depois partilharmos o que lemos. Para que saibas, o teu velho sofá foi para o lixo. Agora temos um sofá novo e uma vida nova. Pintamos as paredes e o teto da cozinha. A nossa casa cheira bem e está sempre alegre. O frigorífico está cheio de coisas boas e ajudamos a mãe a cozinhar. Também te queríamos dizer que a escola corre muito bem. Nunca nos perguntaste, como foi o vosso dia? Os nossos dias vão muito bem. Entramos para o secundário e temos boas notas. Somos bons irmãos, unidos e gentis.

O nosso passado não pode ser mudado. Tu fazes parte do nosso passado. És uma mancha nas nossas recordações, um borrão que não se apaga. Temos esperança que com o tempo se vá atenuando, apaziguando. O nosso maior receio era quando saías da prisão e voltavas para casa. Um dia chegávamos e lá estavas para voltar a infernizar as nossas vidas. Agora sabemos que não mais sairás do buraco onde jazes. Apesar de tudo não te queremos mal. Estás morto, que mal te poderíamos querer? Honramos a tua memória. És o nosso pai. És o nosso exemplo a não seguir. Não te podemos esquecer, se não fá-lo-íamos. Temos que conviver contigo para o resto das nossas vidas, porque tu também és nós e por isso vamos dar-te uma nova oportunidade. Descansa em paz e tem um santo Natal. Podes ficar sossegado que vamos cuidar sempre bem da mãe. Assim podes aprender como se faz. Também te podemos ensinar o que é o amor. Talvez um dia até te consigamos amar. Não queremos viver na raiva, na revolta do que foi, só queremos continuar com as nossas vidas, na esperança de fazer melhor do que tu foste capaz. E foste capaz de tão pouco. Dizem que o mundo está mal, que há guerras e desentendimentos entre as nações. Tu eras a nossa nação. Tu estavas em guerra contigo próprio e com aqueles que te amavam e que deverias amar. Só quando em cada coração houver amor e paz, é que o amor e paz poderão transparecer para o mundo. Queríamos contar-te que já decidimos o que queremos fazer no futuro. Queremos ser Médicos ou Psicólogos e ajudar pessoas como tu, perdidas na vida. Queremos dedicar-nos a ajudar gente como tu, porque a ti, não fomos capazes de ajudar. Fazemos-te aqui a promessa de que vamos estudar muito para o conseguirmos. E em cada pessoa que ajudarmos, veremos o teu rosto e a cada pessoa que ajudarmos, ajudar-te-emos. E muitos filhos voltarão a ser felizes, pois nós vamos ajudar os seus familiares a encontrarem-se. Contigo já não vamos a tempo, mas faremos disso uma missão de vida, por ti, por nós e pela mãe. Talvez se um dia tivermos filhos lhes contaremos a nossa história e até os acompanharemos a este sítio, para verem a pessoa que nos elevou para uma maior consciência da vida e da natureza do ser humano. Agora que a carta chega ao fim, estamos a lembrar-nos de uma história de Mia Couto que a mãe nos costumava contar, em que um pai leva o seu filho ao médico, preocupado por ele escrever poesia e o médico pergunta ao menino, “dói-te alguma coisa?” E o menino responde: “Dói-me a vida doutor.” A nós também nos dói a vida. Talvez vamos acabar por ser Médicos Escritores Poetas e transformar as nossas dores em poesia e com esta combinação percebermos melhor a essência do ser humano. Deseja-nos sorte.

Dos teus filhos, recebe esta carta escrita a duas vozes.

Os gémeos colocaram a carta na lápide, junto da foto, como se quisessem dizer que era para que o pai a visse bem. E os três, de mãos dadas, seguiram caminho, porque era dia de Natal e o sol brilhava. Em casa prepararam a ceia de Natal com cheiro a doces e a poesia.


Amélia Silva, dezembro de 2025

domingo, 23 de novembro de 2025

 

II cartas a Gonçalo


Na passada sexta-feira fui ver-te. Era o lançamento do teu novo livro, o fim dos Estados Unidos da América. Independentemente do evento, queria ouvir-te. Já tinha ouvido alguns podcast teus e identifico-me muito com os teus pensamentos sobre o mundo e a vida em geral. Levei os filhos comigo, acho que foi importante para eles. Deparei-me com uma espécie de capela remodelada “à arquiteto”, ambiente desconfortável e estranho. Reparei que havia lugares para os vip e lugares para o povo. Nada a condizer contigo, pessoa simples e sublime. Mais uma vez não me desiludiste. Trataste todas as pessoas como iguais, foste carinhoso e paciente. Passaste por temas, desde, Donald Trump e a América (impossível fugir), aos antigos filósofos Gregos, ao nazismo, empatia tóxica (coisa do diabo) e empática, ao hospital e hospitalidade. Eu vim de coração cheio e percebi que a minha filha também estava impressionada. No carro, ao regressar a casa, disse-lhes: daqui a uns anos, quando for anunciado como prémio Nobel, irão lembrar-se deste dia. Falta dizer que fui pedir-te para assinar o livro e que te dei uma palavra: Vipassana. Espero que lhe faças bom uso.

Quanto ao festival Utopia, já me tinham dito que tinha acabado com a Feira do Livro. Já me tinham dito que era elitista: jantares vínicos e lugares diferentes para o povo e para os berço de oiro. Não fiquei com vontade de voltar, a não ser que seja para te ouvir outra vez. O dinheiro compra muita coisa, mas quando se quer dar, dá-se, sem olhar a quem. Faz o bem, não olhes a quem. Será uma utopia?

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Peter Pan


Mais um audiolivro, agora Peter Pan!
Já toda a gente ouviu falar de Peter Pan e de Wendy. Isso resulta das inúmeras adaptações desta obra de James Barrie para o teatro, cinema e televisão. Aqui terão a oportunidade de ouvir este conto na sua versão integral. Ficarão surpreendidos com o humor do autor!

sexta-feira, 2 de maio de 2025


 Diário do apagão

A minha filha disse-me, mamã, temos tanta sorte! Era o dia 28 de abril, o dia do apagão.

Pois, temos sorte. Podemos cozinhar no fogão a lenha ou a gás, temos água da nossa mina, o congelador cheio e muita comida na horta, não precisamos muito do carro, umas duas ou três vezes por semana para irmos à vila ou à cidade de Braga, temos velas e lanternas e gostamos de ouvir a rádio. Sim, é verdade, o nosso dia não sofreu muito com este apagão, não estamos presos no metro, ou numa enorme fila de trânsito ou à espera de um autocarro para ir para casa ou num supermercado a abarrotar de gente preocupada em abastecer-se.

E fiquei a pensar na sorte que tinha. Depois veio-me à mente que também temos a doença, a morte, desentendimentos com os filhos, discussões conjugais, falta de dinheiro, tristeza e depressão como muita gente.

Mas também temos alegria, compaixão, bondade e amor, dia sim dia não.

terça-feira, 29 de abril de 2025


 Ai vida malvada!

quarta-feira, 23 de abril de 2025

 


I Cartas a Gonçalo

Aquela que vai morrer escreve àquele que vai morrer.

Aquela que vai morrer quer informar aquele que vai morrer da existência de Vipassana.

Vipassana é uma técnica de autorealização descoberta por Buda, o iluminado. Embora tendo sido ensinada na Índia há 2500 anos por Gautama o Buda, não está vinculada ao budismo ou a qualquer outra religião, podendo ser praticada por todos independentemente das suas crenças religiosas. Vipassana é um remédio universal para males universais, uma Arte de Viver. Atualmente existem centros por todo o mundo onde se pode fazer um curso de 10 dias.

O meu primeiro curso em 2008 foi a coisa mais difícil que fiz em toda a minha vida, mais difícil do que ter os filhos. Graças a esta técnica começamos a perceber como a mente funciona e todos os condicionamentos a que estamos sujeitos. Aprendemos a “não fazer nada”. Todo o tempo é passado a não fazer nada, apenas observar (damo-nos conta de como é tão difícil). Então muitas das questões existenciais essenciais passam a ter resposta. Mas cada pessoa tem que fazer a sua própria experiência, constantemente, ninguém pode fazê-lo por nós.

No início estranha-se, depois entranha-se. Fiz o meu primeiro curso em Espanha e quando comecei a ouvir as gravações com o professor S. N. Goenka a entoar os cânticos numa língua desconhecida (Pali, a língua falada pelo iluminado), pensei que tinha ido parar a uma seita. Mas a técnica é tão pura, tão científica que depois percebi que foi o ato mais corajoso e mais maravilhoso que pude fazer na minha vida. Para além do mais não há dinheiros envolvidos o que me agrada bastante. Todas as pessoas que tornam o curso possível são voluntárias. No final, a nossa gratidão é tão grande que queremos contribuir com um donativo para que mais pessoas possam beneficiar desses cursos, mas nada nos é pedido.

S. N. Goenka (1924–2013) foi o professor que mais contribuiu para a divulgação desta técnica no ocidente. Aqui podes ver uma palestra que deu nas Nações Unidas em 2000. https://youtu.be/TBta6vIFbuI?si=nzPFfj0gwF6B82qO

O site do Vipassana Portugal é

https://pt.dhamma.org/pt/

Em Portugal ainda não há um Centro de meditação, mas há cursos em espaços alugados, como por exemplo em Monchique.

(ver calendário de cursos https://www.dhamma.org/pt/schedules/noncenter/pt).

O Centro com melhores condições e mais próximo de nós é o Dhamma Sacca em Espanha, Candeleda, onde também há alguns cursos em português/Inglês.

https://sacca.dhamma.org/pt/ cursos em https://www.dhamma.org/es/schedules/schsacca

No site https://pariyatti.org/ podemos encontrar “free resources” https://store.pariyatti.org/ebooks-shelf muito valiosos como por exemplo os livros, “A arte de morrer” e “A arte de viver” e ainda os livros de poesia de um professor de Vipassana australiano, Ian McCrorie, “The moon appears when the water is still” (A lua aparece quando as águas se acalmam), “Children of silence and slow time” e “A lifetime doing nothing”.

https://store.pariyatti.org/ebooks-shelf

Espero que esta informação te seja útil e que te ajude a lidar melhor com a vida e com a morte.

Um abraço,

Amélia

segunda-feira, 14 de abril de 2025


 

Memórias de uma Páscoa pequenina

Quando eu era pequena adorava a Páscoa, dei comigo a dizer a uma amiga.

Nesse dia tinha sempre roupa nova a estrear. Era costume haver roupa nova na Páscoa e às vezes até calçado. Por isso gostava tanto do domingo de Páscoa. Podia até ter sido comprada muitos dias antes, mas tinha que esperar para ser vestida no domingo.

Costumava acompanhar a minha bisavó Esmeralda à missa das sete da manhã. Gostava daquele acordar cedo, na semiescuridão e percorrer o caminho até à igreja a pé. Tudo parecia calmo e a igreja um lugar mais suportável.

Lembro-me de ter ido com o meu primo ao Porto comprar roupa nova. O meu primo é mais velho do que eu. Lembro-me que tinha comprado na Parfois um macacão azul claro e uma camisa cor de laranja, um pouco grande para mim. Tenho também ideia de um estranhos acessórios, acho que eram uns clipes gigantes em plástico e comprei alguns a condizer. O meu primo pediu-me se lhe emprestava a camisa laranja para usar na noite de sábado para ir aos bares gays. Mas eu queria a camisa para estrear na missa das sete de domingo e era domingo de Páscoa. O meu primo só costumava chegar de madrugada. Então combinou deixá-la no estendal em frente da sua casa (as nossas casas eram lado a lado). De manhã bem cedo lá fui ao sítio combinado e peguei na camisa laranja demasiado grande para mim, que estava pendurada numa cruzeta. Era domingo de Páscoa e ia estrear roupa nova. Mas a camisa cheirava mal, cheirava a fumo e a noite mal dormida. Vesti-a mesmo assim com aquele cheiro. Parecia que tinha ido de direta para a missa, mas para isso teria que ser uma grande devota e eu era apenas uma menina.

Tirando este episódio, toda a preparação do momento da chegada do Compasso era muito excitante para mim. Nos dias antes ajudava a minha mãe na grande limpeza da Páscoa. Os móveis eram oleados, o chão encerado, toda a casa ficava a brilhar. No próprio dia ia apanhar flores e fazia um lindo tapete na entrada da casa que dava para a sala. Depois deixava-me ficar a brincar com as outras crianças da rua, sempre atenta ao som dos sininhos que indicavam a proximidade do compasso. Quando o compasso aparecia ao fundo da rua corria para casa. Ficávamos na sala à espera. Tinha sempre um envelope que entregava ao último homem do compasso, o que vinha com uma bolsa preta e dava rebuçados e um santinho. Mas antes tinha ajoelhado e dado um beijinho nos pés do Jesus. Depois o homem que segurava a cruz passava um pano como se isso fosse adiantar alguma coisa. A seguir corria para a casa do meu primo para mais beijinhos e receber mais rebuçados e santinhos. À tarde íamos a casa da avó Justa e mais beijinhos, rebuçados e santinhos. Por esta altura a roupa nova já parecia usada e o calçado já tinha sido trocado, é que queria correr e jogar à bola à vontade. Hoje ainda o som dos sininhos me traz alguma excitação, mas agora o estímulo é mais para fugir. Das lembranças não podemos fugir. Essas acompanham-nos sempre.

segunda-feira, 7 de abril de 2025


 Somos todos uns sobreviventes

Hoje acordei com esta ideia. Não me sai da cabeça. Somos todos uns sobreviventes.

No caminho de Rossas para Vieira há imensos sapos esmagados. É sempre o mesmo todos os anos. Chega a primavera e logo que cai uma chuva miudinha os sapos saem à noite para se encontrarem. Antes não havia nenhuma estrada e os sapos estavam seguros. Agora saem à noite para se reproduzirem e são esmagados às centenas. Certamente muitos escapam. Esses são os sobreviventes.

Nós também, cada dia que pegamos no carro e regressamos a casa somos uns sobreviventes.

Sempre que andamos de comboio, avião, damos saltos de parapente, viajamos num submarino, tanque de guerra ou foguetão e por fim regressamos às nossas casas somos uns sobreviventes.

Quando damos ao nosso corpo uma comida rasca qualquer somos uns sobreviventes. Podemos ficar com aftas na língua, azia, gases, dores de barriga, mas continuamos as nossas vidas.

Outras vezes o coração funciona mal ou são os vasos que entopem e com mais ou menos ajuda da medicina continuamos as nossas vidas. Ou acordamos com dores nas costas e mal nos sustemos em pé ou temos uma entorse no tornozelo ou o joelho inchado, ou dores nas articulações, mas mantemos o nosso dia a dia.

Por vezes são os intestinos que não funcionam e começamos a ficar intoxicados ou funcionam demais e só pedimos para que parem. E mesmo assim nós continuamos.

Às vezes temos dores de dentes e começam a abanar e a cair ou doem-nos os ouvidos, ou a cabeça e tomamos qualquer coisa para esquecer a dor e prosseguimos.

Ou estamos amarelos porque o nosso fígado não pode mais ou temos que tirar a vesícula ou a pedra nos rins, mas nada nos detém.

Podemos estar deprimidos, não ter vontade da vida ou demasiado agitados que nem pregamos olho, mas ainda assim seguimos.

Mesmo as guerras que não param não nos fazem parar, nem a fome, nem as doenças.

E quando a morte chega pedimos-lhe que espere mais um bocadinho. Ainda temos alguns partes do corpo a funcionar, ainda não fizemos tudo o que queríamos, ainda nos falta fazer tanta coisa.

Quando o sapo que é esmagado na estrada morre o que será que ele sente? Ele não sabe que vai morrer. Ele segue o impulso da criação e está no sítio errado à hora errada.

Para nós também é difícil conseguir parar o impulso de correr. Mas corremos para quê? Onde queremos chegar? O nosso corpo é a maior maravilha do mundo. Ele permite-nos fazer tudo e nós fazemos tudo dele e com ele. Um dia falha e não há mais nada. Mas até lá somos todos uns sobreviventes.

quinta-feira, 3 de abril de 2025

 


                

      Já vos aconteceu?

sábado, 22 de março de 2025

Audiobooks os livros contam por Amélia Silva


https://www.youtube.com/@Audiobooksoslivroscontam


Ontem, enquanto gravava o capítulo XV do livro “A maravilhosa viagem de Nils Holgersson através da Suécia”, de Selma Lagerlof começaram-me a faltar as palavras e a voz a emaranhar-se toda. Parei a gravação e respirei fundo. Ainda não me tinha acontecido nestas minhas andanças de caloira na gravação de audiolivros.

No capítulo em questão, Nils Holgersson, depois de ter sido raptado pelas gralhas e salvo pelo ganso branco, volta a querer reunir-se com o bando de patos bravos. Só que durante a viagem são acometidos pelo sono e o cansaço e decidem parar para descansar no estábulo de uma herdade com aspeto de abandonada.

Nesse estábulo encontra-se uma vaca já velha e algumas galinhas. Nils não consegue dormir porque a vaca não sossega por ainda não ter comido. A vaca pede a Nils para ir à casa ver se aconteceu alguma coisa à sua dona, pois estranha a sua ausência.

Nils entra na cozinha pela gateira da porta e dá com a velha senhora estendida no chão, morta. Nas paredes da casa Nils pode ver retratos dos filhos e dos netos, mas a velha senhora morreu triste e sozinha. A descrição que a autora faz da cena é tão envolvente que me deixei levar pela emoção. Parei a gravação e pensei no privilégio que tenho de poder contar obras de tão grande qualidade.

Comecei esta aventura de criar um canal no Youtube de audiolivros desafiada por uma amiga, que não é portuguesa mas vive em Portugal e que queria encontrar audiobooks em português para as suas filhas, mas não encontrava nada. Fiz uma pesquisa e verifiquei que de facto a oferta é reduzida. E assim comprei um microfone e comecei a gravar.

Sinto-me muito feliz por poder prestar a minha humilde homenagem a tão grandes autores da literatura universal, contribuindo para a disponibilização das suas obras. Claro que o canal está ainda no início e por isso ainda tem pouca oferta, mas em breve haverá mais!

Neste canal, Audiobooks os livros contam, só irão encontrar obras em domínio público, por respeito aos direitos de autor. Como esta é uma produção caseirinha não se admirem de ouvir o folhear de livros (estou a ler a partir de livros), o galo a cantar ou cães e gatos, portas a bater dos filhos estarem a passar, mas faz parte do mundo em que vivo.

Queria agradecer ao meu marido Joa que me ajuda na parte técnica e aos meus filhos que são a minha maior inspiração e os meus maiores críticos. E acima de tudo aos autores das incríveis obras que podem ouvir neste canal.

Agradeço também a vocês, claro, por escutarem estas palavras e se gostarem, por favor subscrevam o canal.

Fiquem bem e sejam felizes!

sábado, 15 de março de 2025

 Resiliência


Há dias assim. Frios, chuvosos, negros.


Depois de uma longa viagem vinda do Porto paras para abastecer. Poucos quilómetros depois a carrinha começa aos soluços. Será possível? Olhas o talão da bomba, gasolina 95, mas a carrinha é a gasóleo, o que foste fazer?

Tinhas ido visitar a tua mãe e o teu pai. Tudo no mesmo dia. Se querem um conselho nunca o façam. A tua mãe está extremamente doente e a definhar de dia para dia. Passaram um momento agradável. Foram almoçar fora e também veio o teu irmão que já não vias há muito tempo. Depois das despedidas seguiste para o teu pai. Era o dia do seu aniversário. Também ele está a ficar velho e doente e fartou-se de falar das suas dores. A sua mulher, que acaba de vencer um cancro, insistia em mostrar as cicatrizes e as pisaduras dos cateteres (que palavra esta). Tinhas feito um bolinho e lancharam juntos. Eram horas de regressar. Na autoestrada não se via nada, a chuva forte, os vidros embaciados e o ar forçado da carrinha que não funciona. O vidro do lado do condutor também não abre. Seguem muito devagar e com cautela, passas o pano no vidro, mas está todo gorduroso e ainda fica pior. Continuam devagar e com cautela. A carrinha está pesada e cheia de tralhas que trazes da casa da tua mãe.

Ao chegar a Braga paras para abastecer. Atestas o depósito. Pouco tempo depois o mundo parece desabar. Está escuro e frio e chove copiosamente. As crianças no banco de trás estão cansadas e começam a ficar inquietas. O teu marido está exausto da condução. O teu filho está doente e não percebe nada do que se está a passar. A tua filha tem uma expressão de terror.

Chamas o reboque. Pouco tempo depois chega um táxi. Confortável e quentinho. Pões as crianças dentro do táxi ao abrigo da chuva. Agora só falta chegar o reboque. Quando finalmente chega, um homem brasileiro e simpático diz que isto de se enganar no combustível está sempre a acontecer. Depois tenta pôr a carrinha em cima do reboque, mas primeiro tira fotos de todos os ângulos e tu estás cansada e com frio e só queres ir para casa. O reboque segue o táxi até ao mecânico.

Pelo caminho percebes que o homem do táxi é uma pessoa muito interessante, conta como já lhe aconteceu enganar-se de combustível. Parece que não és a única, mas isso não te faz sentir melhor. Falam do estado a que chegou o país e das notícias do mundo. O táxi está confortável e quente e já se sentem todos melhor.

Quando entras em casa está escuro e frio. O fogão apagado. Os gatos e a cadela reclamam de fome e querem atenção. Pedes aos teus filhos que se ocupem deles enquanto cozinhas alguma coisa. Mas a fome não é muita. E o teu filho está doente e a tua filha desaba num choro para aliviar a tensão e vai para a cama sem jantar. E as vacas do vizinho estão a berrar. O sacana ainda não veio dar-lhes comida. Vais ter que falar com ele mais uma vez.

Finalmente a casa fica silenciosa e decides tomar um duche quente. Ao passar no corredor o pó no chão esvoaça à tua passagem e pensas que a casa precisa de ser limpa. Na casa de banho o espelho está cheio de manchas de dentífrico e pensas, ainda bem que assim não consegues ver o teu ar triste e os olhos encovados.

O teu marido foi relaxar um pouco em frente à televisão. Sentas-te ao seu lado e partilham preocupações, será que a carrinha vai ficar bem, quanto será o arranjo. Depois trocam um olhar cúmplice e dão um abraço de conforto. Vais para a cama tentar meditar (grande erro) e acabas a dormitar.

É bom não estar sozinha. O marido, os filhos, o homem do táxi, o homem do reboque, a tua mãe, o teu pai, o teu irmão, a mulher do teu pai, todos fizeram parte do teu dia. Talvez o teu dia não foi assim tão negro, só que não consegues ver. E todas essas pessoas vivem os seus dias o melhor que podem e sabem. E tu fazes o mesmo. E a vida segue indiferente às tuas emoções e tu sentes-te viva apesar de tudo. E sorris. Que dia este. Podia ser bem pior. E lembras-te de quando eras pequenina ouvires o teu pai dizer: há dias que de manhã, não se pode sair de tarde, à noite. E tu, que nunca tinhas percebido o sentido, começas a entender.

sexta-feira, 7 de março de 2025


 Como não criar galinhas. Aprenda com os meus erros. Não aconselhável a pessoas sensíveis.

Espero que o título do artigo não o engane. Este não é um artigo sobre como criar galinhas. Este é um artigo sobre como não criar galinhas. No fim de o escrever acrescentei a parte do não aconselhável a pessoas sensíveis.

Para começar, nunca devia ter começado a criar galinhas. O sonho de viver numa quinta e tornar-me autossustentável apanhou-me.

As galinhas pareciam ser uma boa opção. Mas eu não sou uma verdadeira mulher do campo, já devia saber isso. Adoro as galinhas, adoro vê-las ciscar, observar as suas relações de dominância, saber onde gostam de dormir, de vê-las chocar e de seguir o seu crescimento. Mas eu não sou uma verdadeira mulher do campo e por isso não as como (quando me apetece compro no supermercado). Este procedimento traz dois problemas (para além do problema com o marido, mas esse é fácil de resolver!).

Primeiro, o que fazer com os machos que nascem, uma vez que só estou interessada nos ovos e machos não põem ovos, para além do mais lutam entre si.

Segundo, as galinhas vão ficando todas na capoeira, mesmo as mais velhinhas que não já põem ovos.

Para resolver estes problemas comecei a dar os machos a amigos e vizinhos. Acho que alguns acabaram na panela, mas nem quero perguntar. Construímos outro galinheiro, por causa da sobrelotação e já não permito mais às galinhas chocarem. É uma grande trabalheira, todos os dias tenho que ir debaixo delas roubar-lhes os ovos e ficam muito zangadas. Se pudessem ouvir ficariam impressionados com os gritos que dão. Também deixei de dar nomes às galinhas e galos.

Como veem sou uma exploradora de galinhas, já vos disse que nunca deveria ter começado a criar galinhas.

Agora tenho mais dois problemas:

ovos a mais; temos que estar constantemente a fazer bolos e outros preparados e aqui em casa vamos ficar todos obesos. Também podia começar a vender ovos, mas a quem? Por aqui toda a gente tem.

as galinhas mais velhas começam a propagar doenças às outras.

Como fazem as vizinhas que são verdadeiras mulheres do campo: quando deixam de pôr ovos vão para a panela e os machos que estão a mais também.

Eu fico com as vísceras às voltas só de pensar. Sou uma exploradora de galinhas, mas não consigo comer. Estas. Elas têm nomes (nunca façam isso). As mais idosas também deviam ter direito a viver, não fossem as doenças.

Felizmente as minhas vizinhas são muito bondosas e ficam-me com toda a criação que eu não quero. Não quero fazer perguntas. Não quero saber o que lhes vai acontecer. Mas sei, só finjo que está tudo bem.

Sou uma fingidora, já vos disse que nunca devia ter começado a criar galinhas.

Quando era pequenina e vivia com os meus pais lembro-me de ver a minha tia cortar o pescoço às galinhas. Era impressionante para uma criança e eu e o meu primo ficávamos a ver e a minha mãe e a minha tia mandavam-nos embora porque estávamos a ter pena e as galinhas nunca mais morriam. Não vou entrar em pormenores de como era a faca cheia de bocas e do som que fazia ao cortar o pescoço, para não o impressionar. Mas a mim impressionou-me. A mim e ao meu primo. Éramos crianças. Também vi matar coelhos. Também não vou entrar em pormenores de como a minha tia os matava à paulada com a mão, para não o impressionar. Mas a mim impressionou-me.

Já fui vegetariana durante muito tempo. Hoje em dia cozinho carne de vez em quando para toda a família. Tenho pena do sofrimento animal e não animal. Eu também sofro, mas acho que eles sofrem mais.

O meu marido brincalhão viu um vídeo uma vez, era uma piada, mas parecia de verdade. Gente como eu que tem pena do sofrimento animal, mas mesmo assim come carne, tinham arranjado uma solução. Tiravam por exemplo só uma perna a uma galinha ou uma pata a um porco e depois punham uma prótese e os animais podiam continuar a viver.

Já está enjoado por esta altura de ler este artigo. Eu pelo menos já estou enjoada de o escrever. Talvez devesse colocar uma bolinha a vermelho como fazem com os filmes. Vou acrescentar no título que não é aconselhável a pessoas impressionáveis.

Mas agora é que vem a verdadeira história.

Depois de ter dado a uma vizinha o galaró, o galo principal e mais antigo (ainda não me perdoei), uma galinha velha (seguramente com mais de 5 anos) e uma galinha que tinha as patas num estado que considerei irrecuperáveis. Sim, porque todas desenvolveram sarna nas patas. Uma doença provocada por um ácaro. Outra coisa importante é limpar e desinfetar o galinheiro periodicamente e confesso que às vezes faço-o em intervalos bem longos. Adiante, essa doença é tratável com óleo mineral (parafina líquida) e cada 3 dias eu e o meu marido estamos a aplicá-lo nas patas das galinhas. A dificuldade é que não se deixam apanhar com facilidade, por isso temos que o fazer à noite quando dormem. Imaginem que algumas dormem bem alto em cima de uma oliveira, ou seja, temos tido grandes aventuras noturnas.

Agora é que começa a verdadeira história.

Uma galinha preta que sofria desta doença estava numa destas manhãs no galinheiro sem se mexer e tinha os dois olhos fechados e cheios de crostas. Parecia respirar com dificuldade como se estivesse a dar as últimas. Esse era o dia de aniversário da minha filha e íamos ficar fora nessa noite. Então pensei que não queria que a galinha ficasse ali morta dentro do galinheiro por 2 dias e fiz o que sempre faço no caso de ter galinhas mortas (neste caso era quase morta) e levei-a ao cimo do monte onde vive a raposa. Sempre fazemos estas oferendas quando isso acontece. Lá fui eu monte acima. Pousei a galinha debaixo de um grande carvalho como sempre faço, despedi-me dela e ela lá ficou, deitada sem se mexer, como morta.

Os dias passaram e começamos o tratamento às galinhas. Tinha dito aos filhos que a galinha preta provavelmente era menos resistente às doenças do que as outras, foi a única que nasceu preta em várias ninhadas. Já a tinha esquecido e a vida retomava o seu ritmo.

Um dia estava a lanchar na cozinha com a minha filha e batem à porta. Quando abri era uma vizinha com que já não falo há mais de 3 anos (esta dava uma boa história de terror) e por isso apanhei um grande susto. Só me queria dizer que estava uma galinha preta no caminho e que provavelmente era minha (claro que isto foi tudo dito em inglês, mas fica aqui a mensagem traduzida).

Agradeci e olhei para a minha filha. Seria? Será que era a galinha preta que deixei no cimo do monte cega e a dar as últimas? Pedi à minha filha que me desse a mão e me acompanhasse.

E sim e era e tinham passado 5 dias desde que a ofereci à raposa. E a raposa deve ter ido de férias. E a galinha preta mereceu voltar a ter um lugar no galinheiro. E não é só uma galinha, é uma supergalinha.

E obrigada por me ouvir. Já lhe disse que nunca deveria ter começado a ter galinhas?

Amélia Silva