segunda-feira, 14 de abril de 2025


 

Memórias de uma Páscoa pequenina

Quando eu era pequena adorava a Páscoa, dei comigo a dizer a uma amiga.

Nesse dia tinha sempre roupa nova a estrear. Era costume haver roupa nova na Páscoa e às vezes até calçado. Por isso gostava tanto do domingo de Páscoa. Podia até ter sido comprada muitos dias antes, mas tinha que esperar para ser vestida no domingo.

Costumava acompanhar a minha bisavó Esmeralda à missa das sete da manhã. Gostava daquele acordar cedo, na semiescuridão e percorrer o caminho até à igreja a pé. Tudo parecia calmo e a igreja um lugar mais suportável.

Lembro-me de ter ido com o meu primo ao Porto comprar roupa nova. O meu primo é mais velho do que eu. Lembro-me que tinha comprado na Parfois um macacão azul claro e uma camisa cor de laranja, um pouco grande para mim. Tenho também ideia de um estranhos acessórios, acho que eram uns clipes gigantes em plástico e comprei alguns a condizer. O meu primo pediu-me se lhe emprestava a camisa laranja para usar na noite de sábado para ir aos bares gays. Mas eu queria a camisa para estrear na missa das sete de domingo e era domingo de Páscoa. O meu primo só costumava chegar de madrugada. Então combinou deixá-la no estendal em frente da sua casa (as nossas casas eram lado a lado). De manhã bem cedo lá fui ao sítio combinado e peguei na camisa laranja demasiado grande para mim, que estava pendurada numa cruzeta. Era domingo de Páscoa e ia estrear roupa nova. Mas a camisa cheirava mal, cheirava a fumo e a noite mal dormida. Vesti-a mesmo assim com aquele cheiro. Parecia que tinha ido de direta para a missa, mas para isso teria que ser uma grande devota e eu era apenas uma menina.

Tirando este episódio, toda a preparação do momento da chegada do Compasso era muito excitante para mim. Nos dias antes ajudava a minha mãe na grande limpeza da Páscoa. Os móveis eram oleados, o chão encerado, toda a casa ficava a brilhar. No próprio dia ia apanhar flores e fazia um lindo tapete na entrada da casa que dava para a sala. Depois deixava-me ficar a brincar com as outras crianças da rua, sempre atenta ao som dos sininhos que indicavam a proximidade do compasso. Quando o compasso aparecia ao fundo da rua corria para casa. Ficávamos na sala à espera. Tinha sempre um envelope que entregava ao último homem do compasso, o que vinha com uma bolsa preta e dava rebuçados e um santinho. Mas antes tinha ajoelhado e dado um beijinho nos pés do Jesus. Depois o homem que segurava a cruz passava um pano como se isso fosse adiantar alguma coisa. A seguir corria para a casa do meu primo para mais beijinhos e receber mais rebuçados e santinhos. À tarde íamos a casa da avó Justa e mais beijinhos, rebuçados e santinhos. Por esta altura a roupa nova já parecia usada e o calçado já tinha sido trocado, é que queria correr e jogar à bola à vontade. Hoje ainda o som dos sininhos me traz alguma excitação, mas agora o estímulo é mais para fugir. Das lembranças não podemos fugir. Essas acompanham-nos sempre.

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