sábado, 22 de março de 2025

Audiobooks os livros contam por Amélia Silva


https://www.youtube.com/@Audiobooksoslivroscontam


Ontem, enquanto gravava o capítulo XV do livro “A maravilhosa viagem de Nils Holgersson através da Suécia”, de Selma Lagerlof começaram-me a faltar as palavras e a voz a emaranhar-se toda. Parei a gravação e respirei fundo. Ainda não me tinha acontecido nestas minhas andanças de caloira na gravação de audiolivros.

No capítulo em questão, Nils Holgersson, depois de ter sido raptado pelas gralhas e salvo pelo ganso branco, volta a querer reunir-se com o bando de patos bravos. Só que durante a viagem são acometidos pelo sono e o cansaço e decidem parar para descansar no estábulo de uma herdade com aspeto de abandonada.

Nesse estábulo encontra-se uma vaca já velha e algumas galinhas. Nils não consegue dormir porque a vaca não sossega por ainda não ter comido. A vaca pede a Nils para ir à casa ver se aconteceu alguma coisa à sua dona, pois estranha a sua ausência.

Nils entra na cozinha pela gateira da porta e dá com a velha senhora estendida no chão, morta. Nas paredes da casa Nils pode ver retratos dos filhos e dos netos, mas a velha senhora morreu triste e sozinha. A descrição que a autora faz da cena é tão envolvente que me deixei levar pela emoção. Parei a gravação e pensei no privilégio que tenho de poder contar obras de tão grande qualidade.

Comecei esta aventura de criar um canal no Youtube de audiolivros desafiada por uma amiga, que não é portuguesa mas vive em Portugal e que queria encontrar audiobooks em português para as suas filhas, mas não encontrava nada. Fiz uma pesquisa e verifiquei que de facto a oferta é reduzida. E assim comprei um microfone e comecei a gravar.

Sinto-me muito feliz por poder prestar a minha humilde homenagem a tão grandes autores da literatura universal, contribuindo para a disponibilização das suas obras. Claro que o canal está ainda no início e por isso ainda tem pouca oferta, mas em breve haverá mais!

Neste canal, Audiobooks os livros contam, só irão encontrar obras em domínio público, por respeito aos direitos de autor. Como esta é uma produção caseirinha não se admirem de ouvir o folhear de livros (estou a ler a partir de livros), o galo a cantar ou cães e gatos, portas a bater dos filhos estarem a passar, mas faz parte do mundo em que vivo.

Queria agradecer ao meu marido Joa que me ajuda na parte técnica e aos meus filhos que são a minha maior inspiração e os meus maiores críticos. E acima de tudo aos autores das incríveis obras que podem ouvir neste canal.

Agradeço também a vocês, claro, por escutarem estas palavras e se gostarem, por favor subscrevam o canal.

Fiquem bem e sejam felizes!

sábado, 15 de março de 2025

 Resiliência


Há dias assim. Frios, chuvosos, negros.


Depois de uma longa viagem vinda do Porto paras para abastecer. Poucos quilómetros depois a carrinha começa aos soluços. Será possível? Olhas o talão da bomba, gasolina 95, mas a carrinha é a gasóleo, o que foste fazer?

Tinhas ido visitar a tua mãe e o teu pai. Tudo no mesmo dia. Se querem um conselho nunca o façam. A tua mãe está extremamente doente e a definhar de dia para dia. Passaram um momento agradável. Foram almoçar fora e também veio o teu irmão que já não vias há muito tempo. Depois das despedidas seguiste para o teu pai. Era o dia do seu aniversário. Também ele está a ficar velho e doente e fartou-se de falar das suas dores. A sua mulher, que acaba de vencer um cancro, insistia em mostrar as cicatrizes e as pisaduras dos cateteres (que palavra esta). Tinhas feito um bolinho e lancharam juntos. Eram horas de regressar. Na autoestrada não se via nada, a chuva forte, os vidros embaciados e o ar forçado da carrinha que não funciona. O vidro do lado do condutor também não abre. Seguem muito devagar e com cautela, passas o pano no vidro, mas está todo gorduroso e ainda fica pior. Continuam devagar e com cautela. A carrinha está pesada e cheia de tralhas que trazes da casa da tua mãe.

Ao chegar a Braga paras para abastecer. Atestas o depósito. Pouco tempo depois o mundo parece desabar. Está escuro e frio e chove copiosamente. As crianças no banco de trás estão cansadas e começam a ficar inquietas. O teu marido está exausto da condução. O teu filho está doente e não percebe nada do que se está a passar. A tua filha tem uma expressão de terror.

Chamas o reboque. Pouco tempo depois chega um táxi. Confortável e quentinho. Pões as crianças dentro do táxi ao abrigo da chuva. Agora só falta chegar o reboque. Quando finalmente chega, um homem brasileiro e simpático diz que isto de se enganar no combustível está sempre a acontecer. Depois tenta pôr a carrinha em cima do reboque, mas primeiro tira fotos de todos os ângulos e tu estás cansada e com frio e só queres ir para casa. O reboque segue o táxi até ao mecânico.

Pelo caminho percebes que o homem do táxi é uma pessoa muito interessante, conta como já lhe aconteceu enganar-se de combustível. Parece que não és a única, mas isso não te faz sentir melhor. Falam do estado a que chegou o país e das notícias do mundo. O táxi está confortável e quente e já se sentem todos melhor.

Quando entras em casa está escuro e frio. O fogão apagado. Os gatos e a cadela reclamam de fome e querem atenção. Pedes aos teus filhos que se ocupem deles enquanto cozinhas alguma coisa. Mas a fome não é muita. E o teu filho está doente e a tua filha desaba num choro para aliviar a tensão e vai para a cama sem jantar. E as vacas do vizinho estão a berrar. O sacana ainda não veio dar-lhes comida. Vais ter que falar com ele mais uma vez.

Finalmente a casa fica silenciosa e decides tomar um duche quente. Ao passar no corredor o pó no chão esvoaça à tua passagem e pensas que a casa precisa de ser limpa. Na casa de banho o espelho está cheio de manchas de dentífrico e pensas, ainda bem que assim não consegues ver o teu ar triste e os olhos encovados.

O teu marido foi relaxar um pouco em frente à televisão. Sentas-te ao seu lado e partilham preocupações, será que a carrinha vai ficar bem, quanto será o arranjo. Depois trocam um olhar cúmplice e dão um abraço de conforto. Vais para a cama tentar meditar (grande erro) e acabas a dormitar.

É bom não estar sozinha. O marido, os filhos, o homem do táxi, o homem do reboque, a tua mãe, o teu pai, o teu irmão, a mulher do teu pai, todos fizeram parte do teu dia. Talvez o teu dia não foi assim tão negro, só que não consegues ver. E todas essas pessoas vivem os seus dias o melhor que podem e sabem. E tu fazes o mesmo. E a vida segue indiferente às tuas emoções e tu sentes-te viva apesar de tudo. E sorris. Que dia este. Podia ser bem pior. E lembras-te de quando eras pequenina ouvires o teu pai dizer: há dias que de manhã, não se pode sair de tarde, à noite. E tu, que nunca tinhas percebido o sentido, começas a entender.

sexta-feira, 7 de março de 2025


 Como não criar galinhas. Aprenda com os meus erros. Não aconselhável a pessoas sensíveis.

Espero que o título do artigo não o engane. Este não é um artigo sobre como criar galinhas. Este é um artigo sobre como não criar galinhas. No fim de o escrever acrescentei a parte do não aconselhável a pessoas sensíveis.

Para começar, nunca devia ter começado a criar galinhas. O sonho de viver numa quinta e tornar-me autossustentável apanhou-me.

As galinhas pareciam ser uma boa opção. Mas eu não sou uma verdadeira mulher do campo, já devia saber isso. Adoro as galinhas, adoro vê-las ciscar, observar as suas relações de dominância, saber onde gostam de dormir, de vê-las chocar e de seguir o seu crescimento. Mas eu não sou uma verdadeira mulher do campo e por isso não as como (quando me apetece compro no supermercado). Este procedimento traz dois problemas (para além do problema com o marido, mas esse é fácil de resolver!).

Primeiro, o que fazer com os machos que nascem, uma vez que só estou interessada nos ovos e machos não põem ovos, para além do mais lutam entre si.

Segundo, as galinhas vão ficando todas na capoeira, mesmo as mais velhinhas que não já põem ovos.

Para resolver estes problemas comecei a dar os machos a amigos e vizinhos. Acho que alguns acabaram na panela, mas nem quero perguntar. Construímos outro galinheiro, por causa da sobrelotação e já não permito mais às galinhas chocarem. É uma grande trabalheira, todos os dias tenho que ir debaixo delas roubar-lhes os ovos e ficam muito zangadas. Se pudessem ouvir ficariam impressionados com os gritos que dão. Também deixei de dar nomes às galinhas e galos.

Como veem sou uma exploradora de galinhas, já vos disse que nunca deveria ter começado a criar galinhas.

Agora tenho mais dois problemas:

ovos a mais; temos que estar constantemente a fazer bolos e outros preparados e aqui em casa vamos ficar todos obesos. Também podia começar a vender ovos, mas a quem? Por aqui toda a gente tem.

as galinhas mais velhas começam a propagar doenças às outras.

Como fazem as vizinhas que são verdadeiras mulheres do campo: quando deixam de pôr ovos vão para a panela e os machos que estão a mais também.

Eu fico com as vísceras às voltas só de pensar. Sou uma exploradora de galinhas, mas não consigo comer. Estas. Elas têm nomes (nunca façam isso). As mais idosas também deviam ter direito a viver, não fossem as doenças.

Felizmente as minhas vizinhas são muito bondosas e ficam-me com toda a criação que eu não quero. Não quero fazer perguntas. Não quero saber o que lhes vai acontecer. Mas sei, só finjo que está tudo bem.

Sou uma fingidora, já vos disse que nunca devia ter começado a criar galinhas.

Quando era pequenina e vivia com os meus pais lembro-me de ver a minha tia cortar o pescoço às galinhas. Era impressionante para uma criança e eu e o meu primo ficávamos a ver e a minha mãe e a minha tia mandavam-nos embora porque estávamos a ter pena e as galinhas nunca mais morriam. Não vou entrar em pormenores de como era a faca cheia de bocas e do som que fazia ao cortar o pescoço, para não o impressionar. Mas a mim impressionou-me. A mim e ao meu primo. Éramos crianças. Também vi matar coelhos. Também não vou entrar em pormenores de como a minha tia os matava à paulada com a mão, para não o impressionar. Mas a mim impressionou-me.

Já fui vegetariana durante muito tempo. Hoje em dia cozinho carne de vez em quando para toda a família. Tenho pena do sofrimento animal e não animal. Eu também sofro, mas acho que eles sofrem mais.

O meu marido brincalhão viu um vídeo uma vez, era uma piada, mas parecia de verdade. Gente como eu que tem pena do sofrimento animal, mas mesmo assim come carne, tinham arranjado uma solução. Tiravam por exemplo só uma perna a uma galinha ou uma pata a um porco e depois punham uma prótese e os animais podiam continuar a viver.

Já está enjoado por esta altura de ler este artigo. Eu pelo menos já estou enjoada de o escrever. Talvez devesse colocar uma bolinha a vermelho como fazem com os filmes. Vou acrescentar no título que não é aconselhável a pessoas impressionáveis.

Mas agora é que vem a verdadeira história.

Depois de ter dado a uma vizinha o galaró, o galo principal e mais antigo (ainda não me perdoei), uma galinha velha (seguramente com mais de 5 anos) e uma galinha que tinha as patas num estado que considerei irrecuperáveis. Sim, porque todas desenvolveram sarna nas patas. Uma doença provocada por um ácaro. Outra coisa importante é limpar e desinfetar o galinheiro periodicamente e confesso que às vezes faço-o em intervalos bem longos. Adiante, essa doença é tratável com óleo mineral (parafina líquida) e cada 3 dias eu e o meu marido estamos a aplicá-lo nas patas das galinhas. A dificuldade é que não se deixam apanhar com facilidade, por isso temos que o fazer à noite quando dormem. Imaginem que algumas dormem bem alto em cima de uma oliveira, ou seja, temos tido grandes aventuras noturnas.

Agora é que começa a verdadeira história.

Uma galinha preta que sofria desta doença estava numa destas manhãs no galinheiro sem se mexer e tinha os dois olhos fechados e cheios de crostas. Parecia respirar com dificuldade como se estivesse a dar as últimas. Esse era o dia de aniversário da minha filha e íamos ficar fora nessa noite. Então pensei que não queria que a galinha ficasse ali morta dentro do galinheiro por 2 dias e fiz o que sempre faço no caso de ter galinhas mortas (neste caso era quase morta) e levei-a ao cimo do monte onde vive a raposa. Sempre fazemos estas oferendas quando isso acontece. Lá fui eu monte acima. Pousei a galinha debaixo de um grande carvalho como sempre faço, despedi-me dela e ela lá ficou, deitada sem se mexer, como morta.

Os dias passaram e começamos o tratamento às galinhas. Tinha dito aos filhos que a galinha preta provavelmente era menos resistente às doenças do que as outras, foi a única que nasceu preta em várias ninhadas. Já a tinha esquecido e a vida retomava o seu ritmo.

Um dia estava a lanchar na cozinha com a minha filha e batem à porta. Quando abri era uma vizinha com que já não falo há mais de 3 anos (esta dava uma boa história de terror) e por isso apanhei um grande susto. Só me queria dizer que estava uma galinha preta no caminho e que provavelmente era minha (claro que isto foi tudo dito em inglês, mas fica aqui a mensagem traduzida).

Agradeci e olhei para a minha filha. Seria? Será que era a galinha preta que deixei no cimo do monte cega e a dar as últimas? Pedi à minha filha que me desse a mão e me acompanhasse.

E sim e era e tinham passado 5 dias desde que a ofereci à raposa. E a raposa deve ter ido de férias. E a galinha preta mereceu voltar a ter um lugar no galinheiro. E não é só uma galinha, é uma supergalinha.

E obrigada por me ouvir. Já lhe disse que nunca deveria ter começado a ter galinhas?

Amélia Silva

10 dias de silêncio num curso de Vipassana

A primeira vez que ouvi falar num curso deste tipo foi há muitos anos atrás. Achei que era uma oportunidade de me encontrar. Depois percebi que ficar a sós comigo, embora no meio de uma multidão, era a coisa mais difícil que alguma vez tinha feito. Muito duro, mas ainda assim sempre volto.

Há uns dias terminei o meu quinto curso de 10 dias de Vipassana. Sinto-me uma aluna mais madura e já sei o que esperar. Ainda assim cada curso é diferente. Durante o curso é recorrente me arrepender de ter ido e tento prometer a mim mesma que a mim nunca mais me apanham! Mas sempre volto, porque a felicidade no final é indescritível e porque é a única forma de conseguir domar um pouco esta mente selvagem.

Desta vez fiquei num quarto com uma outra rapariga. Não tive oportunidade de falar com ela pois já cheguei tarde e o nobre silêncio estava quase a começar. Durante 5 dias partilhamos as rotinas em silêncio. Ao 5º dia desapareceu. Não mais a vi. Não resistiu. A mente é tão poderosa que está continuamente a desejar que nos vamos embora, é preciso ter uma firme determinação para ficar até ao fim.

Não sei o teu nome. Apenas te via diariamente nos teus gestos lentos e silenciosos. Eras tão silenciosa que às vezes nem sabia se estarias no quarto ou não. Sempre adormecias primeiro do que eu, eu sou um caso sério para dormir. A tua respiração era tão suave que parecias um anjo.

Colocaste lençóis a toda a volta da tua cama como para criar uma área privada. Na noite anterior a te ires embora levantaste esse forte. Achei que tinhas percebido que eu também era silenciosa e que podias confiar em mim.

Afinal fazias era as malas.

Não sei o teu nome. Sei que reparei logo em ti à chegada porque me parecias uma criança e pensei, admitem crianças neste curso? Afinal eras apenas pequenina, com uns pés de bailarina e uns cabelos negros longos. Tinhas um ar de indiana, mas nunca irei saber a tua nacionalidade. Nunca irei saber nada de ti. A menina misteriosa com quem partilhei um quarto por 5 dias.

Quando cheguei ao quarto e não mais te vi, tive um misto de sentimentos. Por um lado tive pena por abandonares um curso tão maravilhoso, por outro lado fiquei contente por ficar com o quarto só para mim. Podia fazer uma rave party cada noite! Just joking! Mas passei a falar baixinho para mim, tinha saudades de ouvir a minha voz.

Onde quer que estejas quero que saibas que te desejo as maiores felicidades, que sejas feliz, estejas em paz e te libertes!

O nascimento de um sonho

 É verdade, depois de ganhar pela terceira vez consecutiva o prémio “Contos de Natal” da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, Braga, Portugal, decidi que era hora e mais que hora de começar a fazer sair os meus escritos da gaveta de papéis. Sim, porque eu sou filha dos anos setenta e estou ainda muito agarrada ao papel. Mas já vou dando alguns passos na tecnologia e aqui está a prova. Com a ajuda da inteligência artificial descobri a plataforma Medium e estou a arquivar aí algumas crónicas.
Ao mesmo tempo vou também publicando neste blogue que tem estado moribundo.

Agora queria fazer algo novo, uma lufada de ar fresco. Não só para publicar artigos de opinião, como também histórias pessoais e contos que vou escrevendo.

Escrevo na cama, ontem fui extrair um dente, um processo doloroso e apesar da dor de cabeça decidi escrever. Talvez com os miolos bem quentes as ideias saiam melhor! Acho que não. Sinto-me cansada, tenho os olhos a arder e a cabeça a latejar, mas a motivação é grande, principalmente porque marido e filhos estão fora numa festa de carnaval e posso aproveitar umas horas sossegada.

Querer ser lida, querer ter reconhecimento, será o sonho de qualquer ser humano? Ser ouvida, eu conto, eu presto para alguma coisa, apesar de toda a infância ter ouvido o contrário. Mas estou a ficar muito melancólica, deve ser da doença ou da alma portuguesa.

Muito bem, irei continuar a fazer sair ideias de mim, irei continuar a encontrar o lugar para a minha palavra. Neste momento encontro-me a escrever um romance juvenil, por agora o título é “O mundo perdido de Meline” e acho que está a ficar bastante interessante. Irei dar a conhecer mais num próximo post.

Obrigada a todos os que leram e apoiaram.