terça-feira, 29 de abril de 2025


 Ai vida malvada!

quarta-feira, 23 de abril de 2025

 


I Cartas a Gonçalo

Aquela que vai morrer escreve àquele que vai morrer.

Aquela que vai morrer quer informar aquele que vai morrer da existência de Vipassana.

Vipassana é uma técnica de autorealização descoberta por Buda, o iluminado. Embora tendo sido ensinada na Índia há 2500 anos por Gautama o Buda, não está vinculada ao budismo ou a qualquer outra religião, podendo ser praticada por todos independentemente das suas crenças religiosas. Vipassana é um remédio universal para males universais, uma Arte de Viver. Atualmente existem centros por todo o mundo onde se pode fazer um curso de 10 dias.

O meu primeiro curso em 2008 foi a coisa mais difícil que fiz em toda a minha vida, mais difícil do que ter os filhos. Graças a esta técnica começamos a perceber como a mente funciona e todos os condicionamentos a que estamos sujeitos. Aprendemos a “não fazer nada”. Todo o tempo é passado a não fazer nada, apenas observar (damo-nos conta de como é tão difícil). Então muitas das questões existenciais essenciais passam a ter resposta. Mas cada pessoa tem que fazer a sua própria experiência, constantemente, ninguém pode fazê-lo por nós.

No início estranha-se, depois entranha-se. Fiz o meu primeiro curso em Espanha e quando comecei a ouvir as gravações com o professor S. N. Goenka a entoar os cânticos numa língua desconhecida (Pali, a língua falada pelo iluminado), pensei que tinha ido parar a uma seita. Mas a técnica é tão pura, tão científica que depois percebi que foi o ato mais corajoso e mais maravilhoso que pude fazer na minha vida. Para além do mais não há dinheiros envolvidos o que me agrada bastante. Todas as pessoas que tornam o curso possível são voluntárias. No final, a nossa gratidão é tão grande que queremos contribuir com um donativo para que mais pessoas possam beneficiar desses cursos, mas nada nos é pedido.

S. N. Goenka (1924–2013) foi o professor que mais contribuiu para a divulgação desta técnica no ocidente. Aqui podes ver uma palestra que deu nas Nações Unidas em 2000. https://youtu.be/TBta6vIFbuI?si=nzPFfj0gwF6B82qO

O site do Vipassana Portugal é

https://pt.dhamma.org/pt/

Em Portugal ainda não há um Centro de meditação, mas há cursos em espaços alugados, como por exemplo em Monchique.

(ver calendário de cursos https://www.dhamma.org/pt/schedules/noncenter/pt).

O Centro com melhores condições e mais próximo de nós é o Dhamma Sacca em Espanha, Candeleda, onde também há alguns cursos em português/Inglês.

https://sacca.dhamma.org/pt/ cursos em https://www.dhamma.org/es/schedules/schsacca

No site https://pariyatti.org/ podemos encontrar “free resources” https://store.pariyatti.org/ebooks-shelf muito valiosos como por exemplo os livros, “A arte de morrer” e “A arte de viver” e ainda os livros de poesia de um professor de Vipassana australiano, Ian McCrorie, “The moon appears when the water is still” (A lua aparece quando as águas se acalmam), “Children of silence and slow time” e “A lifetime doing nothing”.

https://store.pariyatti.org/ebooks-shelf

Espero que esta informação te seja útil e que te ajude a lidar melhor com a vida e com a morte.

Um abraço,

Amélia

segunda-feira, 14 de abril de 2025


 

Memórias de uma Páscoa pequenina

Quando eu era pequena adorava a Páscoa, dei comigo a dizer a uma amiga.

Nesse dia tinha sempre roupa nova a estrear. Era costume haver roupa nova na Páscoa e às vezes até calçado. Por isso gostava tanto do domingo de Páscoa. Podia até ter sido comprada muitos dias antes, mas tinha que esperar para ser vestida no domingo.

Costumava acompanhar a minha bisavó Esmeralda à missa das sete da manhã. Gostava daquele acordar cedo, na semiescuridão e percorrer o caminho até à igreja a pé. Tudo parecia calmo e a igreja um lugar mais suportável.

Lembro-me de ter ido com o meu primo ao Porto comprar roupa nova. O meu primo é mais velho do que eu. Lembro-me que tinha comprado na Parfois um macacão azul claro e uma camisa cor de laranja, um pouco grande para mim. Tenho também ideia de um estranhos acessórios, acho que eram uns clipes gigantes em plástico e comprei alguns a condizer. O meu primo pediu-me se lhe emprestava a camisa laranja para usar na noite de sábado para ir aos bares gays. Mas eu queria a camisa para estrear na missa das sete de domingo e era domingo de Páscoa. O meu primo só costumava chegar de madrugada. Então combinou deixá-la no estendal em frente da sua casa (as nossas casas eram lado a lado). De manhã bem cedo lá fui ao sítio combinado e peguei na camisa laranja demasiado grande para mim, que estava pendurada numa cruzeta. Era domingo de Páscoa e ia estrear roupa nova. Mas a camisa cheirava mal, cheirava a fumo e a noite mal dormida. Vesti-a mesmo assim com aquele cheiro. Parecia que tinha ido de direta para a missa, mas para isso teria que ser uma grande devota e eu era apenas uma menina.

Tirando este episódio, toda a preparação do momento da chegada do Compasso era muito excitante para mim. Nos dias antes ajudava a minha mãe na grande limpeza da Páscoa. Os móveis eram oleados, o chão encerado, toda a casa ficava a brilhar. No próprio dia ia apanhar flores e fazia um lindo tapete na entrada da casa que dava para a sala. Depois deixava-me ficar a brincar com as outras crianças da rua, sempre atenta ao som dos sininhos que indicavam a proximidade do compasso. Quando o compasso aparecia ao fundo da rua corria para casa. Ficávamos na sala à espera. Tinha sempre um envelope que entregava ao último homem do compasso, o que vinha com uma bolsa preta e dava rebuçados e um santinho. Mas antes tinha ajoelhado e dado um beijinho nos pés do Jesus. Depois o homem que segurava a cruz passava um pano como se isso fosse adiantar alguma coisa. A seguir corria para a casa do meu primo para mais beijinhos e receber mais rebuçados e santinhos. À tarde íamos a casa da avó Justa e mais beijinhos, rebuçados e santinhos. Por esta altura a roupa nova já parecia usada e o calçado já tinha sido trocado, é que queria correr e jogar à bola à vontade. Hoje ainda o som dos sininhos me traz alguma excitação, mas agora o estímulo é mais para fugir. Das lembranças não podemos fugir. Essas acompanham-nos sempre.

segunda-feira, 7 de abril de 2025


 Somos todos uns sobreviventes

Hoje acordei com esta ideia. Não me sai da cabeça. Somos todos uns sobreviventes.

No caminho de Rossas para Vieira há imensos sapos esmagados. É sempre o mesmo todos os anos. Chega a primavera e logo que cai uma chuva miudinha os sapos saem à noite para se encontrarem. Antes não havia nenhuma estrada e os sapos estavam seguros. Agora saem à noite para se reproduzirem e são esmagados às centenas. Certamente muitos escapam. Esses são os sobreviventes.

Nós também, cada dia que pegamos no carro e regressamos a casa somos uns sobreviventes.

Sempre que andamos de comboio, avião, damos saltos de parapente, viajamos num submarino, tanque de guerra ou foguetão e por fim regressamos às nossas casas somos uns sobreviventes.

Quando damos ao nosso corpo uma comida rasca qualquer somos uns sobreviventes. Podemos ficar com aftas na língua, azia, gases, dores de barriga, mas continuamos as nossas vidas.

Outras vezes o coração funciona mal ou são os vasos que entopem e com mais ou menos ajuda da medicina continuamos as nossas vidas. Ou acordamos com dores nas costas e mal nos sustemos em pé ou temos uma entorse no tornozelo ou o joelho inchado, ou dores nas articulações, mas mantemos o nosso dia a dia.

Por vezes são os intestinos que não funcionam e começamos a ficar intoxicados ou funcionam demais e só pedimos para que parem. E mesmo assim nós continuamos.

Às vezes temos dores de dentes e começam a abanar e a cair ou doem-nos os ouvidos, ou a cabeça e tomamos qualquer coisa para esquecer a dor e prosseguimos.

Ou estamos amarelos porque o nosso fígado não pode mais ou temos que tirar a vesícula ou a pedra nos rins, mas nada nos detém.

Podemos estar deprimidos, não ter vontade da vida ou demasiado agitados que nem pregamos olho, mas ainda assim seguimos.

Mesmo as guerras que não param não nos fazem parar, nem a fome, nem as doenças.

E quando a morte chega pedimos-lhe que espere mais um bocadinho. Ainda temos alguns partes do corpo a funcionar, ainda não fizemos tudo o que queríamos, ainda nos falta fazer tanta coisa.

Quando o sapo que é esmagado na estrada morre o que será que ele sente? Ele não sabe que vai morrer. Ele segue o impulso da criação e está no sítio errado à hora errada.

Para nós também é difícil conseguir parar o impulso de correr. Mas corremos para quê? Onde queremos chegar? O nosso corpo é a maior maravilha do mundo. Ele permite-nos fazer tudo e nós fazemos tudo dele e com ele. Um dia falha e não há mais nada. Mas até lá somos todos uns sobreviventes.

quinta-feira, 3 de abril de 2025

 


                

      Já vos aconteceu?