Voltei a concorrer ao concurso de Contos de Natal da BLCS.
Depois de ter vencido por três anos consecutivos, desta vez fiquei a ver passar navios. Logo agora que me tinha habituado a vencer! Partilho com vocês o conto, aviso já que é duro, mas foi assim que me saiu, cru e duro como a vida.
Desta vez o tema era: Paz e direitos humanos.
"A Guerra começa antes do primeiro disparo: a guerra começa neste processo de desumanização do outro. E a literatura é uma fonte de resistência contra este processo de desumanizar o outro." Mia Couto, em entrevista para a TV Brasil, 2023.
E este foi o conto que escrevi:
A Irmandade
Em tempos de trevas procuramos a luz.
A luz do dia é fácil de seguir, mas quando os dias se fazem noite,
é difícil ter quem nos alumie. Às vezes um livro. Uma leitura
pode-nos abrir esse sol, mas os livros não servem só por si se não
praticarmos na relação com o outro. Um cavalo, numa manada, segue
o líder cegamente, mesmo que seja um mau líder. Os filhos seguem os
pais. Se os pais forem maus líderes, a sina pode perpetuar-se. Mas
se um dia alguém consegue sair dessa chafurdice, se tem a sorte de
poder ser e pensar diferente, é catapultado para um outro
entendimento e para uma nova forma de ser. As feridas antigas deixam
cicatrizes. Ainda podem abrir e sangrar, mas esses episódios vão-se
tornando menos frequentes.
Esta é a história de uma mãe, uma
mãe igual a tantas outras, que trabalha, que tem os filhos a seu
cargo e que se esquece de si. O papel dessa mãe é proteger os
filhos dos acessos de fúria do marido, das suas bebedeiras e dos
amigos do jogo.
Era ao amanhecer, naquele ambiente de
fumo, que a mãe preparava as marmitas para os gémeos. Nessa altura
o pai ia deitar-se no sofá, bêbado e drogado. Muitas das vezes o
frigorífico encontrava-se vazio. Durante a noite tinha comido tudo
com os amigalhaços e não sobrava muito para fazer as sanduíches
para os filhos levarem para a escola. Deixem filhos, dizia a mãe, a
caminho passaremos no supermercado. E lá saíam de casa, a mãe para
o trabalho e os filhos para a escola. Regressavam já noite e a
história repetia-se.
Às vezes o pai estava sóbrio,
prometia mudar, que acreditassem, nunca mais tocaria na bebida, nem
no tabaco. Nessas alturas tomava banho, barbeava-se, dormia durante a
noite, coisa rara, e durante o dia saía a procurar emprego. Quando
conseguia trabalho chegava a casa com prendas para as crianças e
flores para a mulher. A mulher esperava para ver até quando. Mas era
sol de pouca dura. Não raras vezes voltava a cair nos vícios.
Um dia chegaram os três a casa e
como de costume a besta estava estendida no sofá. Jantaram e foram
dormir. A besta continuava inerte e inerte ficou até a mulher se
aperceber que já não tinha vida. Os filhos lamentaram a sua morte,
mas não muito. A mulher lamentou a sua morte, mas não muito. Depois
de enterrado o morto, recomeçaram as suas vidas. O sofá velho e
roto foi para o lixo. Compraram um novo e todos os dias, depois do
jantar, sentavam-se os três, cada um com o seu livro.
Quando eram pequenos, depois do
jantar, para fugirem aos devaneios do pai, a mãe levava-os para o
quarto e contava-lhes histórias. A mãe lia-lhes livros de Sophia de
Mello Breyner Andersen. Com “A Floresta” entraram num mundo
mágico e perceberam que as boas ações são sempre recompensadas.
Quando a mãe lhes leu “O Rapaz de bronze”, aprenderam a apreciar
a beleza nos pequenos detalhes do quotidiano e a sua vida ficou mais
colorida. Na companhia da “Fada Oriana”, os seus dias tornaram-se
mais leves, percebendo que até a fada, um ente mágico, se tinha
desviado dos seus deveres. Mas na história, a fada pôde sanar as
suas faltas e o perdão chegou quando se esqueceu dela própria para
salvar a pobre velha. Para o seu pai, esquecido de si e esquecido
deles, parecia não haver perdão. Com “O Cavaleiro da Dinamarca”
e “A noite de Natal”, passaram a valorizar esta tão bela quadra
de união e convivência familiar, algo que só vivenciavam nas
histórias. Raras vezes se recordavam dessa celebração. Durante as
férias de Natal, a mãe inscrevia-os numa colónia de férias na
neve, para que pudessem ficar afastados do ambiente tóxico da casa.
Assim foram crescendo.
Com o passar dos anos tornaram-se
belos jovens adultos e agora, que o pai tinha partido, nunca era
demasiado tarde para tentar perdoar e buscar a paz nas relações
perdidas. Sabiam ser demasiado tarde para o seu pai, mas ainda assim
decidiram escrever-lhe uma carta. Era dia de Natal e depois da carta
escrita foram juntos levá-la ao seu túmulo. A carta rezava assim:
Querido pai,
não foste um pai querido. Mesmo
quando parecias melhor e paravas de beber tínhamos medo de ti. Sim,
porque a qualquer momento mudavas de humor e punhas-te a gritar com a
mãe e connosco. Sabemos que não o fazias por mal, só que não
conseguias controlar-te. Quando caías em ti pedias muitas desculpas
e punhas-te a chorar como um desgraçado. Desgraçado é a palavra
certa para ti. Tiveste uma vida desgraçada. A mãe contou-nos como o
teu pai era um tirano. Que te batia e te tratava mal. Eras a ovelha
negra, só porque tiveste uma doença grave em pequeno que fez de ti
o mais fraco. O nosso avó, que felizmente já não fez parte das
nossas vidas, acabou com a tua. Tu não tiveste a força de te
levantar. Tiveste muita sorte por teres encontrado a mãe. Sem ela
serias um vagabundo da rua. Com ela foste um vagabundo com teto.
Gostaríamos que não tivesses morrido, que conseguisses dominar a
tua cabeça, a tua raiva e que nos pudesses ter visto crescer. A mãe
sempre nos contou histórias que nos ajudaram a crescer. Nós um dia
também iremos contar a tua história. A mãe deu-nos amor pelos dois
e para nós foi o bastante. A mãe sofreu em silêncio e pôs cara
alegre quando estava desfeita. Nós sempre tivemos a escola e os
nossos amigos. Durante o dia quase esquecíamos o peso que sentíamos
por te ter como pai. Ao chegar a casa e te ver no sofá a dormir, a
casa tão cheia de fumo que até fez escurecer o teto da cozinha,
voltávamos à triste realidade. A mãe sempre nos tentou proteger,
mas bem víamos que passavas a noite com os teus amigos na cozinha a
beber e a fumar. Ela levava-nos para o quarto e contava-nos
histórias. Foi graças à mãe e às suas histórias que hoje somos
quem somos. Sofremos muito, a mãe sofreu muito e ainda continua a
sofrer. Mostrou-nos o álbum de fotografias de quando vocês casaram.
Eras um belo homem. Os teus olhos azuis profundos pareciam mostrar
inteligência e delicadeza. Ninguém sabe onde te perdeste. A mãe
acha que foi a droga e as más companhias. Sabes o que nos dói mais?
Nós achamos que nos amavas, de uma maneira estranha, mas amavas.
Como é que esse amor não foi forte o suficiente para te arrancar do
buraco onde vivias? E o amor à mãe? Transparece nas fotos o teu
grande amor por ela. Foi a tua mulher. Fez de mãe, melhor amiga,
enfermeira e muito mais. Só não entendemos como pôde aturar-te
tanto tempo. Achamos que teve pena que acabasses numa valeta. A mãe
é a nossa heroína. Estamos-lhe gratos por tudo o que sempre fez por
nós. A ti estamos gratos pela vida, sem ti não teríamos nascido,
mas não foste importante para nós em mais nada. De resto, só nos
destruíste. És o responsável por termos de fazer anos de terapia,
que esperemos que resulte, pois não queremos repetir nas nossas
futuras famílias, o que nós passamos. Talvez voltemos cá um dia
para te apresentar a conta do psicólogo.
A mãe não sabe o que está escrito
nesta carta. Não quis ler. Ela sabe tudo o que nós sentimos, só de
olhar para nós. Tu nunca olhaste verdadeiramente para nós. Não te
suportavas a ti próprio, quanto mais outros seres, que por acaso
foste corresponsável de pôr neste mundo. Achamos que não
aguentaste a pressão, talvez querias a mãe sempre só para ti, como
se fosses o único. Mas não eras o seu filho, eras o seu marido e
comportaste-te como um canalha. Fizeste-nos conhecer o sofrimento
desde muito cedo. Talvez te devíamos agradecer por nos teres
preparado tão bem para a vida. Agora sabemos o que não queremos.
Com a ajuda da mãe estamos a
descobrir o que é a paz. O que é a tranquilidade de estarmos
sentados no sofá a ler um bom livro e depois partilharmos o que
lemos. Para que saibas, o teu velho sofá foi para o lixo. Agora
temos um sofá novo e uma vida nova. Pintamos as paredes e o teto da
cozinha. A nossa casa cheira bem e está sempre alegre. O frigorífico
está cheio de coisas boas e ajudamos a mãe a cozinhar. Também te
queríamos dizer que a escola corre muito bem. Nunca nos perguntaste,
como foi o vosso dia? Os nossos dias vão muito bem. Entramos para o
secundário e temos boas notas. Somos bons irmãos, unidos e gentis.
O nosso passado não pode ser mudado.
Tu fazes parte do nosso passado. És uma mancha nas nossas
recordações, um borrão que não se apaga. Temos esperança que com
o tempo se vá atenuando, apaziguando. O nosso maior receio era
quando saías da prisão e voltavas para casa. Um dia chegávamos e
lá estavas para voltar a infernizar as nossas vidas. Agora sabemos
que não mais sairás do buraco onde jazes. Apesar de tudo não te
queremos mal. Estás morto, que mal te poderíamos querer? Honramos a
tua memória. És o nosso pai. És o nosso exemplo a não seguir. Não
te podemos esquecer, se não fá-lo-íamos. Temos que conviver
contigo para o resto das nossas vidas, porque tu também és nós e
por isso vamos dar-te uma nova oportunidade. Descansa em paz e tem um
santo Natal. Podes ficar sossegado que vamos cuidar sempre bem da
mãe. Assim podes aprender como se faz. Também te podemos ensinar o
que é o amor. Talvez um dia até te consigamos amar. Não queremos
viver na raiva, na revolta do que foi, só queremos continuar com as
nossas vidas, na esperança de fazer melhor do que tu foste capaz. E
foste capaz de tão pouco. Dizem que o mundo está mal, que há
guerras e desentendimentos entre as nações. Tu eras a nossa nação.
Tu estavas em guerra contigo próprio e com aqueles que te amavam e
que deverias amar. Só quando em cada coração houver amor e paz, é
que o amor e paz poderão transparecer para o mundo. Queríamos
contar-te que já decidimos o que queremos fazer no futuro. Queremos
ser Médicos ou Psicólogos e ajudar pessoas como tu, perdidas na
vida. Queremos dedicar-nos a ajudar gente como tu, porque a ti, não
fomos capazes de ajudar. Fazemos-te aqui a promessa de que vamos
estudar muito para o conseguirmos. E em cada pessoa que ajudarmos,
veremos o teu rosto e a cada pessoa que ajudarmos, ajudar-te-emos. E
muitos filhos voltarão a ser felizes, pois nós vamos ajudar os seus
familiares a encontrarem-se. Contigo já não vamos a tempo, mas
faremos disso uma missão de vida, por ti, por nós e pela mãe.
Talvez se um dia tivermos filhos lhes contaremos a nossa história e
até os acompanharemos a este sítio, para verem a pessoa que nos
elevou para uma maior consciência da vida e da natureza do ser
humano. Agora que a carta chega ao fim, estamos a lembrar-nos de uma
história de Mia Couto que a mãe nos costumava contar, em que um pai
leva o seu filho ao médico, preocupado por ele escrever poesia e o
médico pergunta ao menino, “dói-te alguma coisa?” E o menino
responde: “Dói-me a vida doutor.” A nós também nos dói a
vida. Talvez vamos acabar por ser Médicos Escritores Poetas e
transformar as nossas dores em poesia e com esta combinação
percebermos melhor a essência do ser humano. Deseja-nos sorte.
Dos teus filhos, recebe esta carta
escrita a duas vozes.
Os gémeos colocaram a carta na
lápide, junto da foto, como se quisessem dizer que era para que o
pai a visse bem. E os três, de mãos dadas, seguiram caminho, porque
era dia de Natal e o sol brilhava. Em casa prepararam a ceia de Natal
com cheiro a doces e a poesia.
Amélia Silva, dezembro de 2025