II cartas a Gonçalo
Na passada sexta-feira fui ver-te. Era o lançamento do teu novo livro, o fim dos Estados Unidos da América. Independentemente do evento, queria ouvir-te. Já tinha ouvido alguns podcast teus e identifico-me muito com os teus pensamentos sobre o mundo e a vida em geral. Levei os filhos comigo, acho que foi importante para eles. Deparei-me com uma espécie de capela remodelada “à arquiteto”, ambiente desconfortável e estranho. Reparei que havia lugares para os vip e lugares para o povo. Nada a condizer contigo, pessoa simples e sublime. Mais uma vez não me desiludiste. Trataste todas as pessoas como iguais, foste carinhoso e paciente. Passaste por temas, desde, Donald Trump e a América (impossível fugir), aos antigos filósofos Gregos, ao nazismo, empatia tóxica (coisa do diabo) e empática, ao hospital e hospitalidade. Eu vim de coração cheio e percebi que a minha filha também estava impressionada. No carro, ao regressar a casa, disse-lhes: daqui a uns anos, quando for anunciado como prémio Nobel, irão lembrar-se deste dia. Falta dizer que fui pedir-te para assinar o livro e que te dei uma palavra: Vipassana. Espero que lhe faças bom uso.
Quanto ao festival Utopia, já me tinham dito que tinha acabado com a Feira do Livro. Já me tinham dito que era elitista: jantares vínicos e lugares diferentes para o povo e para os berço de oiro. Não fiquei com vontade de voltar, a não ser que seja para te ouvir outra vez. O dinheiro compra muita coisa, mas quando se quer dar, dá-se, sem olhar a quem. Faz o bem, não olhes a quem. Será uma utopia?