segunda-feira, 7 de abril de 2025


 Somos todos uns sobreviventes

Hoje acordei com esta ideia. Não me sai da cabeça. Somos todos uns sobreviventes.

No caminho de Rossas para Vieira há imensos sapos esmagados. É sempre o mesmo todos os anos. Chega a primavera e logo que cai uma chuva miudinha os sapos saem à noite para se encontrarem. Antes não havia nenhuma estrada e os sapos estavam seguros. Agora saem à noite para se reproduzirem e são esmagados às centenas. Certamente muitos escapam. Esses são os sobreviventes.

Nós também, cada dia que pegamos no carro e regressamos a casa somos uns sobreviventes.

Sempre que andamos de comboio, avião, damos saltos de parapente, viajamos num submarino, tanque de guerra ou foguetão e por fim regressamos às nossas casas somos uns sobreviventes.

Quando damos ao nosso corpo uma comida rasca qualquer somos uns sobreviventes. Podemos ficar com aftas na língua, azia, gases, dores de barriga, mas continuamos as nossas vidas.

Outras vezes o coração funciona mal ou são os vasos que entopem e com mais ou menos ajuda da medicina continuamos as nossas vidas. Ou acordamos com dores nas costas e mal nos sustemos em pé ou temos uma entorse no tornozelo ou o joelho inchado, ou dores nas articulações, mas mantemos o nosso dia a dia.

Por vezes são os intestinos que não funcionam e começamos a ficar intoxicados ou funcionam demais e só pedimos para que parem. E mesmo assim nós continuamos.

Às vezes temos dores de dentes e começam a abanar e a cair ou doem-nos os ouvidos, ou a cabeça e tomamos qualquer coisa para esquecer a dor e prosseguimos.

Ou estamos amarelos porque o nosso fígado não pode mais ou temos que tirar a vesícula ou a pedra nos rins, mas nada nos detém.

Podemos estar deprimidos, não ter vontade da vida ou demasiado agitados que nem pregamos olho, mas ainda assim seguimos.

Mesmo as guerras que não param não nos fazem parar, nem a fome, nem as doenças.

E quando a morte chega pedimos-lhe que espere mais um bocadinho. Ainda temos alguns partes do corpo a funcionar, ainda não fizemos tudo o que queríamos, ainda nos falta fazer tanta coisa.

Quando o sapo que é esmagado na estrada morre o que será que ele sente? Ele não sabe que vai morrer. Ele segue o impulso da criação e está no sítio errado à hora errada.

Para nós também é difícil conseguir parar o impulso de correr. Mas corremos para quê? Onde queremos chegar? O nosso corpo é a maior maravilha do mundo. Ele permite-nos fazer tudo e nós fazemos tudo dele e com ele. Um dia falha e não há mais nada. Mas até lá somos todos uns sobreviventes.

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