Já vos aconteceu?
Há uns dias atrás foi o meu aniversário. Pensei que gostaria de fazer algo de diferente nesse dia, quebrar a rotina.
Lembrei-me que os meus filhos sempre quiseram ver neve sem sucesso. Algumas vezes viram geada, ou alguns farrapos a cair do céu, mas nunca neve suficiente para fazer um boneco de neve nem que fosse do tamanho de um polegar.
Quando era ainda uma jovem estudante universitária tinha ido à Galiza a Manzaneda com amigos e tínhamos brincado a valer na neve. Desenterradas essas memórias, reservei uma noite num albergue em Manzaneda e lá fizemos as malas.
Escusado será dizer que a viagem, embora não muito longa, é sempre difícil com crianças. Espera lá, não são mais crianças, são já adolescentes. Acabaram por levar uma amiga e tudo correu muito bem.
O dia estava bastante quente. A primavera acordara e eu temia que não fosse haver neve nenhuma. O meu marido olhava-me como que a dizer, tanto caminho para nada, com este sol não irá haver neve. Nunca o disse, mas senti-o. Quando chegamos a Manzaneda era hora do almoço. A pequena vila parecia fantasma, não se via ninguém nas ruas, não passava um único carro, onde estaria toda a gente? Talvez nas grandes cidades em volta a trabalhar. Talvez final de março era demasiado tarde. A animação devia ser de dezembro a fevereiro, pensei eu.
Instalamo-nos no albergue e comemos o farnel que tinha preparado. Comecei logo por jogar à defesa, achava que não iria haver neve nesta altura do ano e com este calor, mas que mesmo assim estava a ser muito bom sair de casa e ver outras paisagens e outras gentes (embora não houvesse ninguém para ver). Estava a enganar-me a mim própria, estava desiludida, mas não queria dar parte fraca.
De Manzaneda até à estação de montanha ainda tínhamos que nos deslocar 11km. Pegamos no carro e lá começamos a subir. A pouca vegetação que se via tinha uma coloração amarelada e os arbustos estavam vergados do peso da neve. Fui observando, estão a ver, a paisagem está assim por ter estado coberta de neve. Veem estes postes de sinalização, servem para medir a altura da neve e este cartaz, repararam, dizia que se tem de circular com correntes nos pneus. Mas nós não precisávamos de nada disso, só tínhamos de ter cuidado com os enormes buracos no asfalto causados pela neve. Nós não estávamos a ver neve, mas muitos indícios da existência de neve.
Subitamente a temperatura foi descendo. Desde a vila onde estariam uns 16 graus, no carro marcava agora 4 graus e o que era aquilo que se via lá ao longe? Seria? Não? Ou era, seria mesmo neve?
Era neve e muita e parecia que ao fim de 10 minutos tínhamos chegado a um outro mundo e víamos esquiadores profissionais completamente equipados e pudemos fazer um enorme boneco de neve e divertimo-nos imenso (pelo menos eu diverti-me!) a deslizar num trenó de plástico que tínhamos levado. Parecia um sonho! O meu marido até disse que para o ano poderíamos voltar mais dias. Ufa, vitória!
Até aqui a parte boa.
No dia seguinte era o meu aniversário. Decidimos que depois do pequeno almoço iríamos fazer um pequeno trilho pedestre de cerca de uma hora que estava marcado num painel informativo à entrada do albergue. Chamava-se ruta da devesa e parece que era muito bonito e que poderíamos admirar os imensos castanheiros centenários que se viam por toda a parte. Depois seria o regresso a casa.
Assim fizemos. Estava mais uma vez uma manhã muito quente e ensolarada. Tomamos o nosso tempo à procura do início do percurso. Calmamente fomos caminhando até chegar a uma granja onde um homem arrancava nabos gigantes que colocava num trator. Falamos um pouco com ele e percebemos que eram para as vacas. Em relação ao trilho disse-nos que já não devia haver passagem, que estava tudo cheio de silvas por não ser limpo há muito tempo e que não havia ponte para atravessar o ribeiro. Decidimos prosseguir mesmo assim.
O percurso estava a ser mesmo difícil, mas ainda assim decidimos continuar, afinal éramos gente do campo, não da cidade!
Atravessamos o curso de água por cima de uns troncos. O calor ia aumentando nas encostas xistosas e íamos começando a livrar-nos das diversas camadas de roupa. Eu caminhava de botas de neve. Era para ser um percurso simples de só uma hora. A água tinha acabado, pois éramos cinco a beber duma pequena garrafa e começávamos a acusar cansaço. Os postes a assinalar o percurso estavam todos caídos e a vegetação era tão densa de matos, silvas e pereiras bravas que já tínhamos a roupa cheia de buracos e a pele toda arranhada. O meu filho mais novo ao perceber que estávamos completamente perdidos começou a chorar que queria voltar para trás. Mas não o podíamos fazer. Voltar para trás levaria ainda mais tempo, pois supostamente já estaríamos a mais de metade do caminho. Por outro lado a minha filha e a sua amiga já iam bastante na frente e não nos queríamos separar. Por isso continuamos sem encontrar nenhum trilho, a corta mato, saltando leiras de mais de dois metros e pelo meio de mato cerrado. O meu marido viu um javali e uma víbora, mas não disse nada para não tornar as coisas mais difíceis. Acabamos por ir dar a uma encosta de vinhas onde tinha uns trabalhadores a podar. Foi bom ver seres humanos! Quando lhes perguntei se tinham água, um homem que me pareceu ser paquistanês deu-nos a sua água. Perguntei-lhe se não lhe faria falta, mas ele não falava espanhol, apenas fez um gesto para ficarmos com a garrafa. Foi um gesto bonito, afinal estava um calor abrasador e certamente lhe iria fazer falta. Um dos homens que falava espanhol indicou-nos uma estrada de asfalto por onde tinham vindo, mas para nós a percorrermos a pé levaria no mínimo 4 horas até ao sítio onde tínhamos o carro e não era solução. O meu filho continuava a chorar. Eu já não podia mais das pernas. O telemóvel tinha ficado sem bateria. Acho que se fosse da sua idade também teria chorado.
O meu marido tinha um plano, íamos baixar até ao rio e passar uma ponte que daí se avistava e procurar o trilho. Deu sorte e uma hora depois estávamos no carro. Não sem antes termos passado, mesmo no final da subida da encosta, por um caminho mal cheiroso, com água choca a escorrer, talvez fossem dejetos de animais, ou quem sabe de humanos, mas o cheiro era nauseabundo e foi com o calçado completamente encharcado desta imundice que entramos no carro. Passamos no albergue para pegarmos nas nossas coisas e tomar um duche e acima de tudo para beber. Bebi água com uma satisfação de que já não tinha memória.
Era o dia do meu aniversário. Carreguei o telemóvel no carro e comecei a ver chamadas não atendidas e mensagens. Eram de amigos e de familiares a desejar um lindo dia, um dia muito feliz, um dia maravilhoso. Afinal era o dia do meu aniversário. A pressão para ter um dia bom fora tanta e agora estava ali no carro exausta (felizmente o marido é que conduzia), com a cara e a nuca queimadas do sol, sem forças nem para devolver as chamadas. Estávamos todos silenciosos. O silêncio dizia tudo. O que era para ter sido um pequeno percurso de uma hora transformou-se num pesadelo de mais de cinco horas. Para além do mais os pólens já se faziam sentir e começava com as alergias e não só eu, toda a família. Seria a alergia à mini escapadinha? Era o dia do meu aniversário, era para ser especial. Especial tinha sido.
Acho que para o ano vou desejar ficar em casa com um bom livro. Encostar-me no sofá e assistir à chegada da primavera a partir de casa.

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