sexta-feira, 7 de março de 2025


 Como não criar galinhas. Aprenda com os meus erros. Não aconselhável a pessoas sensíveis.

Espero que o título do artigo não o engane. Este não é um artigo sobre como criar galinhas. Este é um artigo sobre como não criar galinhas. No fim de o escrever acrescentei a parte do não aconselhável a pessoas sensíveis.

Para começar, nunca devia ter começado a criar galinhas. O sonho de viver numa quinta e tornar-me autossustentável apanhou-me.

As galinhas pareciam ser uma boa opção. Mas eu não sou uma verdadeira mulher do campo, já devia saber isso. Adoro as galinhas, adoro vê-las ciscar, observar as suas relações de dominância, saber onde gostam de dormir, de vê-las chocar e de seguir o seu crescimento. Mas eu não sou uma verdadeira mulher do campo e por isso não as como (quando me apetece compro no supermercado). Este procedimento traz dois problemas (para além do problema com o marido, mas esse é fácil de resolver!).

Primeiro, o que fazer com os machos que nascem, uma vez que só estou interessada nos ovos e machos não põem ovos, para além do mais lutam entre si.

Segundo, as galinhas vão ficando todas na capoeira, mesmo as mais velhinhas que não já põem ovos.

Para resolver estes problemas comecei a dar os machos a amigos e vizinhos. Acho que alguns acabaram na panela, mas nem quero perguntar. Construímos outro galinheiro, por causa da sobrelotação e já não permito mais às galinhas chocarem. É uma grande trabalheira, todos os dias tenho que ir debaixo delas roubar-lhes os ovos e ficam muito zangadas. Se pudessem ouvir ficariam impressionados com os gritos que dão. Também deixei de dar nomes às galinhas e galos.

Como veem sou uma exploradora de galinhas, já vos disse que nunca deveria ter começado a criar galinhas.

Agora tenho mais dois problemas:

ovos a mais; temos que estar constantemente a fazer bolos e outros preparados e aqui em casa vamos ficar todos obesos. Também podia começar a vender ovos, mas a quem? Por aqui toda a gente tem.

as galinhas mais velhas começam a propagar doenças às outras.

Como fazem as vizinhas que são verdadeiras mulheres do campo: quando deixam de pôr ovos vão para a panela e os machos que estão a mais também.

Eu fico com as vísceras às voltas só de pensar. Sou uma exploradora de galinhas, mas não consigo comer. Estas. Elas têm nomes (nunca façam isso). As mais idosas também deviam ter direito a viver, não fossem as doenças.

Felizmente as minhas vizinhas são muito bondosas e ficam-me com toda a criação que eu não quero. Não quero fazer perguntas. Não quero saber o que lhes vai acontecer. Mas sei, só finjo que está tudo bem.

Sou uma fingidora, já vos disse que nunca devia ter começado a criar galinhas.

Quando era pequenina e vivia com os meus pais lembro-me de ver a minha tia cortar o pescoço às galinhas. Era impressionante para uma criança e eu e o meu primo ficávamos a ver e a minha mãe e a minha tia mandavam-nos embora porque estávamos a ter pena e as galinhas nunca mais morriam. Não vou entrar em pormenores de como era a faca cheia de bocas e do som que fazia ao cortar o pescoço, para não o impressionar. Mas a mim impressionou-me. A mim e ao meu primo. Éramos crianças. Também vi matar coelhos. Também não vou entrar em pormenores de como a minha tia os matava à paulada com a mão, para não o impressionar. Mas a mim impressionou-me.

Já fui vegetariana durante muito tempo. Hoje em dia cozinho carne de vez em quando para toda a família. Tenho pena do sofrimento animal e não animal. Eu também sofro, mas acho que eles sofrem mais.

O meu marido brincalhão viu um vídeo uma vez, era uma piada, mas parecia de verdade. Gente como eu que tem pena do sofrimento animal, mas mesmo assim come carne, tinham arranjado uma solução. Tiravam por exemplo só uma perna a uma galinha ou uma pata a um porco e depois punham uma prótese e os animais podiam continuar a viver.

Já está enjoado por esta altura de ler este artigo. Eu pelo menos já estou enjoada de o escrever. Talvez devesse colocar uma bolinha a vermelho como fazem com os filmes. Vou acrescentar no título que não é aconselhável a pessoas impressionáveis.

Mas agora é que vem a verdadeira história.

Depois de ter dado a uma vizinha o galaró, o galo principal e mais antigo (ainda não me perdoei), uma galinha velha (seguramente com mais de 5 anos) e uma galinha que tinha as patas num estado que considerei irrecuperáveis. Sim, porque todas desenvolveram sarna nas patas. Uma doença provocada por um ácaro. Outra coisa importante é limpar e desinfetar o galinheiro periodicamente e confesso que às vezes faço-o em intervalos bem longos. Adiante, essa doença é tratável com óleo mineral (parafina líquida) e cada 3 dias eu e o meu marido estamos a aplicá-lo nas patas das galinhas. A dificuldade é que não se deixam apanhar com facilidade, por isso temos que o fazer à noite quando dormem. Imaginem que algumas dormem bem alto em cima de uma oliveira, ou seja, temos tido grandes aventuras noturnas.

Agora é que começa a verdadeira história.

Uma galinha preta que sofria desta doença estava numa destas manhãs no galinheiro sem se mexer e tinha os dois olhos fechados e cheios de crostas. Parecia respirar com dificuldade como se estivesse a dar as últimas. Esse era o dia de aniversário da minha filha e íamos ficar fora nessa noite. Então pensei que não queria que a galinha ficasse ali morta dentro do galinheiro por 2 dias e fiz o que sempre faço no caso de ter galinhas mortas (neste caso era quase morta) e levei-a ao cimo do monte onde vive a raposa. Sempre fazemos estas oferendas quando isso acontece. Lá fui eu monte acima. Pousei a galinha debaixo de um grande carvalho como sempre faço, despedi-me dela e ela lá ficou, deitada sem se mexer, como morta.

Os dias passaram e começamos o tratamento às galinhas. Tinha dito aos filhos que a galinha preta provavelmente era menos resistente às doenças do que as outras, foi a única que nasceu preta em várias ninhadas. Já a tinha esquecido e a vida retomava o seu ritmo.

Um dia estava a lanchar na cozinha com a minha filha e batem à porta. Quando abri era uma vizinha com que já não falo há mais de 3 anos (esta dava uma boa história de terror) e por isso apanhei um grande susto. Só me queria dizer que estava uma galinha preta no caminho e que provavelmente era minha (claro que isto foi tudo dito em inglês, mas fica aqui a mensagem traduzida).

Agradeci e olhei para a minha filha. Seria? Será que era a galinha preta que deixei no cimo do monte cega e a dar as últimas? Pedi à minha filha que me desse a mão e me acompanhasse.

E sim e era e tinham passado 5 dias desde que a ofereci à raposa. E a raposa deve ter ido de férias. E a galinha preta mereceu voltar a ter um lugar no galinheiro. E não é só uma galinha, é uma supergalinha.

E obrigada por me ouvir. Já lhe disse que nunca deveria ter começado a ter galinhas?

Amélia Silva

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