segunda-feira, 14 de abril de 2025


 

Memórias de uma Páscoa pequenina

Quando eu era pequena adorava a Páscoa, dei comigo a dizer a uma amiga.

Nesse dia tinha sempre roupa nova a estrear. Era costume haver roupa nova na Páscoa e às vezes até calçado. Por isso gostava tanto do domingo de Páscoa. Podia até ter sido comprada muitos dias antes, mas tinha que esperar para ser vestida no domingo.

Costumava acompanhar a minha bisavó Esmeralda à missa das sete da manhã. Gostava daquele acordar cedo, na semiescuridão e percorrer o caminho até à igreja a pé. Tudo parecia calmo e a igreja um lugar mais suportável.

Lembro-me de ter ido com o meu primo ao Porto comprar roupa nova. O meu primo é mais velho do que eu. Lembro-me que tinha comprado na Parfois um macacão azul claro e uma camisa cor de laranja, um pouco grande para mim. Tenho também ideia de um estranhos acessórios, acho que eram uns clipes gigantes em plástico e comprei alguns a condizer. O meu primo pediu-me se lhe emprestava a camisa laranja para usar na noite de sábado para ir aos bares gays. Mas eu queria a camisa para estrear na missa das sete de domingo e era domingo de Páscoa. O meu primo só costumava chegar de madrugada. Então combinou deixá-la no estendal em frente da sua casa (as nossas casas eram lado a lado). De manhã bem cedo lá fui ao sítio combinado e peguei na camisa laranja demasiado grande para mim, que estava pendurada numa cruzeta. Era domingo de Páscoa e ia estrear roupa nova. Mas a camisa cheirava mal, cheirava a fumo e a noite mal dormida. Vesti-a mesmo assim com aquele cheiro. Parecia que tinha ido de direta para a missa, mas para isso teria que ser uma grande devota e eu era apenas uma menina.

Tirando este episódio, toda a preparação do momento da chegada do Compasso era muito excitante para mim. Nos dias antes ajudava a minha mãe na grande limpeza da Páscoa. Os móveis eram oleados, o chão encerado, toda a casa ficava a brilhar. No próprio dia ia apanhar flores e fazia um lindo tapete na entrada da casa que dava para a sala. Depois deixava-me ficar a brincar com as outras crianças da rua, sempre atenta ao som dos sininhos que indicavam a proximidade do compasso. Quando o compasso aparecia ao fundo da rua corria para casa. Ficávamos na sala à espera. Tinha sempre um envelope que entregava ao último homem do compasso, o que vinha com uma bolsa preta e dava rebuçados e um santinho. Mas antes tinha ajoelhado e dado um beijinho nos pés do Jesus. Depois o homem que segurava a cruz passava um pano como se isso fosse adiantar alguma coisa. A seguir corria para a casa do meu primo para mais beijinhos e receber mais rebuçados e santinhos. À tarde íamos a casa da avó Justa e mais beijinhos, rebuçados e santinhos. Por esta altura a roupa nova já parecia usada e o calçado já tinha sido trocado, é que queria correr e jogar à bola à vontade. Hoje ainda o som dos sininhos me traz alguma excitação, mas agora o estímulo é mais para fugir. Das lembranças não podemos fugir. Essas acompanham-nos sempre.

segunda-feira, 7 de abril de 2025


 Somos todos uns sobreviventes

Hoje acordei com esta ideia. Não me sai da cabeça. Somos todos uns sobreviventes.

No caminho de Rossas para Vieira há imensos sapos esmagados. É sempre o mesmo todos os anos. Chega a primavera e logo que cai uma chuva miudinha os sapos saem à noite para se encontrarem. Antes não havia nenhuma estrada e os sapos estavam seguros. Agora saem à noite para se reproduzirem e são esmagados às centenas. Certamente muitos escapam. Esses são os sobreviventes.

Nós também, cada dia que pegamos no carro e regressamos a casa somos uns sobreviventes.

Sempre que andamos de comboio, avião, damos saltos de parapente, viajamos num submarino, tanque de guerra ou foguetão e por fim regressamos às nossas casas somos uns sobreviventes.

Quando damos ao nosso corpo uma comida rasca qualquer somos uns sobreviventes. Podemos ficar com aftas na língua, azia, gases, dores de barriga, mas continuamos as nossas vidas.

Outras vezes o coração funciona mal ou são os vasos que entopem e com mais ou menos ajuda da medicina continuamos as nossas vidas. Ou acordamos com dores nas costas e mal nos sustemos em pé ou temos uma entorse no tornozelo ou o joelho inchado, ou dores nas articulações, mas mantemos o nosso dia a dia.

Por vezes são os intestinos que não funcionam e começamos a ficar intoxicados ou funcionam demais e só pedimos para que parem. E mesmo assim nós continuamos.

Às vezes temos dores de dentes e começam a abanar e a cair ou doem-nos os ouvidos, ou a cabeça e tomamos qualquer coisa para esquecer a dor e prosseguimos.

Ou estamos amarelos porque o nosso fígado não pode mais ou temos que tirar a vesícula ou a pedra nos rins, mas nada nos detém.

Podemos estar deprimidos, não ter vontade da vida ou demasiado agitados que nem pregamos olho, mas ainda assim seguimos.

Mesmo as guerras que não param não nos fazem parar, nem a fome, nem as doenças.

E quando a morte chega pedimos-lhe que espere mais um bocadinho. Ainda temos alguns partes do corpo a funcionar, ainda não fizemos tudo o que queríamos, ainda nos falta fazer tanta coisa.

Quando o sapo que é esmagado na estrada morre o que será que ele sente? Ele não sabe que vai morrer. Ele segue o impulso da criação e está no sítio errado à hora errada.

Para nós também é difícil conseguir parar o impulso de correr. Mas corremos para quê? Onde queremos chegar? O nosso corpo é a maior maravilha do mundo. Ele permite-nos fazer tudo e nós fazemos tudo dele e com ele. Um dia falha e não há mais nada. Mas até lá somos todos uns sobreviventes.

quinta-feira, 3 de abril de 2025

 


                

      Já vos aconteceu?

sábado, 22 de março de 2025

Audiobooks os livros contam por Amélia Silva


https://www.youtube.com/@Audiobooksoslivroscontam


Ontem, enquanto gravava o capítulo XV do livro “A maravilhosa viagem de Nils Holgersson através da Suécia”, de Selma Lagerlof começaram-me a faltar as palavras e a voz a emaranhar-se toda. Parei a gravação e respirei fundo. Ainda não me tinha acontecido nestas minhas andanças de caloira na gravação de audiolivros.

No capítulo em questão, Nils Holgersson, depois de ter sido raptado pelas gralhas e salvo pelo ganso branco, volta a querer reunir-se com o bando de patos bravos. Só que durante a viagem são acometidos pelo sono e o cansaço e decidem parar para descansar no estábulo de uma herdade com aspeto de abandonada.

Nesse estábulo encontra-se uma vaca já velha e algumas galinhas. Nils não consegue dormir porque a vaca não sossega por ainda não ter comido. A vaca pede a Nils para ir à casa ver se aconteceu alguma coisa à sua dona, pois estranha a sua ausência.

Nils entra na cozinha pela gateira da porta e dá com a velha senhora estendida no chão, morta. Nas paredes da casa Nils pode ver retratos dos filhos e dos netos, mas a velha senhora morreu triste e sozinha. A descrição que a autora faz da cena é tão envolvente que me deixei levar pela emoção. Parei a gravação e pensei no privilégio que tenho de poder contar obras de tão grande qualidade.

Comecei esta aventura de criar um canal no Youtube de audiolivros desafiada por uma amiga, que não é portuguesa mas vive em Portugal e que queria encontrar audiobooks em português para as suas filhas, mas não encontrava nada. Fiz uma pesquisa e verifiquei que de facto a oferta é reduzida. E assim comprei um microfone e comecei a gravar.

Sinto-me muito feliz por poder prestar a minha humilde homenagem a tão grandes autores da literatura universal, contribuindo para a disponibilização das suas obras. Claro que o canal está ainda no início e por isso ainda tem pouca oferta, mas em breve haverá mais!

Neste canal, Audiobooks os livros contam, só irão encontrar obras em domínio público, por respeito aos direitos de autor. Como esta é uma produção caseirinha não se admirem de ouvir o folhear de livros (estou a ler a partir de livros), o galo a cantar ou cães e gatos, portas a bater dos filhos estarem a passar, mas faz parte do mundo em que vivo.

Queria agradecer ao meu marido Joa que me ajuda na parte técnica e aos meus filhos que são a minha maior inspiração e os meus maiores críticos. E acima de tudo aos autores das incríveis obras que podem ouvir neste canal.

Agradeço também a vocês, claro, por escutarem estas palavras e se gostarem, por favor subscrevam o canal.

Fiquem bem e sejam felizes!

sábado, 15 de março de 2025

 Resiliência


Há dias assim. Frios, chuvosos, negros.


Depois de uma longa viagem vinda do Porto paras para abastecer. Poucos quilómetros depois a carrinha começa aos soluços. Será possível? Olhas o talão da bomba, gasolina 95, mas a carrinha é a gasóleo, o que foste fazer?

Tinhas ido visitar a tua mãe e o teu pai. Tudo no mesmo dia. Se querem um conselho nunca o façam. A tua mãe está extremamente doente e a definhar de dia para dia. Passaram um momento agradável. Foram almoçar fora e também veio o teu irmão que já não vias há muito tempo. Depois das despedidas seguiste para o teu pai. Era o dia do seu aniversário. Também ele está a ficar velho e doente e fartou-se de falar das suas dores. A sua mulher, que acaba de vencer um cancro, insistia em mostrar as cicatrizes e as pisaduras dos cateteres (que palavra esta). Tinhas feito um bolinho e lancharam juntos. Eram horas de regressar. Na autoestrada não se via nada, a chuva forte, os vidros embaciados e o ar forçado da carrinha que não funciona. O vidro do lado do condutor também não abre. Seguem muito devagar e com cautela, passas o pano no vidro, mas está todo gorduroso e ainda fica pior. Continuam devagar e com cautela. A carrinha está pesada e cheia de tralhas que trazes da casa da tua mãe.

Ao chegar a Braga paras para abastecer. Atestas o depósito. Pouco tempo depois o mundo parece desabar. Está escuro e frio e chove copiosamente. As crianças no banco de trás estão cansadas e começam a ficar inquietas. O teu marido está exausto da condução. O teu filho está doente e não percebe nada do que se está a passar. A tua filha tem uma expressão de terror.

Chamas o reboque. Pouco tempo depois chega um táxi. Confortável e quentinho. Pões as crianças dentro do táxi ao abrigo da chuva. Agora só falta chegar o reboque. Quando finalmente chega, um homem brasileiro e simpático diz que isto de se enganar no combustível está sempre a acontecer. Depois tenta pôr a carrinha em cima do reboque, mas primeiro tira fotos de todos os ângulos e tu estás cansada e com frio e só queres ir para casa. O reboque segue o táxi até ao mecânico.

Pelo caminho percebes que o homem do táxi é uma pessoa muito interessante, conta como já lhe aconteceu enganar-se de combustível. Parece que não és a única, mas isso não te faz sentir melhor. Falam do estado a que chegou o país e das notícias do mundo. O táxi está confortável e quente e já se sentem todos melhor.

Quando entras em casa está escuro e frio. O fogão apagado. Os gatos e a cadela reclamam de fome e querem atenção. Pedes aos teus filhos que se ocupem deles enquanto cozinhas alguma coisa. Mas a fome não é muita. E o teu filho está doente e a tua filha desaba num choro para aliviar a tensão e vai para a cama sem jantar. E as vacas do vizinho estão a berrar. O sacana ainda não veio dar-lhes comida. Vais ter que falar com ele mais uma vez.

Finalmente a casa fica silenciosa e decides tomar um duche quente. Ao passar no corredor o pó no chão esvoaça à tua passagem e pensas que a casa precisa de ser limpa. Na casa de banho o espelho está cheio de manchas de dentífrico e pensas, ainda bem que assim não consegues ver o teu ar triste e os olhos encovados.

O teu marido foi relaxar um pouco em frente à televisão. Sentas-te ao seu lado e partilham preocupações, será que a carrinha vai ficar bem, quanto será o arranjo. Depois trocam um olhar cúmplice e dão um abraço de conforto. Vais para a cama tentar meditar (grande erro) e acabas a dormitar.

É bom não estar sozinha. O marido, os filhos, o homem do táxi, o homem do reboque, a tua mãe, o teu pai, o teu irmão, a mulher do teu pai, todos fizeram parte do teu dia. Talvez o teu dia não foi assim tão negro, só que não consegues ver. E todas essas pessoas vivem os seus dias o melhor que podem e sabem. E tu fazes o mesmo. E a vida segue indiferente às tuas emoções e tu sentes-te viva apesar de tudo. E sorris. Que dia este. Podia ser bem pior. E lembras-te de quando eras pequenina ouvires o teu pai dizer: há dias que de manhã, não se pode sair de tarde, à noite. E tu, que nunca tinhas percebido o sentido, começas a entender.

sexta-feira, 7 de março de 2025


 Como não criar galinhas. Aprenda com os meus erros. Não aconselhável a pessoas sensíveis.

Espero que o título do artigo não o engane. Este não é um artigo sobre como criar galinhas. Este é um artigo sobre como não criar galinhas. No fim de o escrever acrescentei a parte do não aconselhável a pessoas sensíveis.

Para começar, nunca devia ter começado a criar galinhas. O sonho de viver numa quinta e tornar-me autossustentável apanhou-me.

As galinhas pareciam ser uma boa opção. Mas eu não sou uma verdadeira mulher do campo, já devia saber isso. Adoro as galinhas, adoro vê-las ciscar, observar as suas relações de dominância, saber onde gostam de dormir, de vê-las chocar e de seguir o seu crescimento. Mas eu não sou uma verdadeira mulher do campo e por isso não as como (quando me apetece compro no supermercado). Este procedimento traz dois problemas (para além do problema com o marido, mas esse é fácil de resolver!).

Primeiro, o que fazer com os machos que nascem, uma vez que só estou interessada nos ovos e machos não põem ovos, para além do mais lutam entre si.

Segundo, as galinhas vão ficando todas na capoeira, mesmo as mais velhinhas que não já põem ovos.

Para resolver estes problemas comecei a dar os machos a amigos e vizinhos. Acho que alguns acabaram na panela, mas nem quero perguntar. Construímos outro galinheiro, por causa da sobrelotação e já não permito mais às galinhas chocarem. É uma grande trabalheira, todos os dias tenho que ir debaixo delas roubar-lhes os ovos e ficam muito zangadas. Se pudessem ouvir ficariam impressionados com os gritos que dão. Também deixei de dar nomes às galinhas e galos.

Como veem sou uma exploradora de galinhas, já vos disse que nunca deveria ter começado a criar galinhas.

Agora tenho mais dois problemas:

ovos a mais; temos que estar constantemente a fazer bolos e outros preparados e aqui em casa vamos ficar todos obesos. Também podia começar a vender ovos, mas a quem? Por aqui toda a gente tem.

as galinhas mais velhas começam a propagar doenças às outras.

Como fazem as vizinhas que são verdadeiras mulheres do campo: quando deixam de pôr ovos vão para a panela e os machos que estão a mais também.

Eu fico com as vísceras às voltas só de pensar. Sou uma exploradora de galinhas, mas não consigo comer. Estas. Elas têm nomes (nunca façam isso). As mais idosas também deviam ter direito a viver, não fossem as doenças.

Felizmente as minhas vizinhas são muito bondosas e ficam-me com toda a criação que eu não quero. Não quero fazer perguntas. Não quero saber o que lhes vai acontecer. Mas sei, só finjo que está tudo bem.

Sou uma fingidora, já vos disse que nunca devia ter começado a criar galinhas.

Quando era pequenina e vivia com os meus pais lembro-me de ver a minha tia cortar o pescoço às galinhas. Era impressionante para uma criança e eu e o meu primo ficávamos a ver e a minha mãe e a minha tia mandavam-nos embora porque estávamos a ter pena e as galinhas nunca mais morriam. Não vou entrar em pormenores de como era a faca cheia de bocas e do som que fazia ao cortar o pescoço, para não o impressionar. Mas a mim impressionou-me. A mim e ao meu primo. Éramos crianças. Também vi matar coelhos. Também não vou entrar em pormenores de como a minha tia os matava à paulada com a mão, para não o impressionar. Mas a mim impressionou-me.

Já fui vegetariana durante muito tempo. Hoje em dia cozinho carne de vez em quando para toda a família. Tenho pena do sofrimento animal e não animal. Eu também sofro, mas acho que eles sofrem mais.

O meu marido brincalhão viu um vídeo uma vez, era uma piada, mas parecia de verdade. Gente como eu que tem pena do sofrimento animal, mas mesmo assim come carne, tinham arranjado uma solução. Tiravam por exemplo só uma perna a uma galinha ou uma pata a um porco e depois punham uma prótese e os animais podiam continuar a viver.

Já está enjoado por esta altura de ler este artigo. Eu pelo menos já estou enjoada de o escrever. Talvez devesse colocar uma bolinha a vermelho como fazem com os filmes. Vou acrescentar no título que não é aconselhável a pessoas impressionáveis.

Mas agora é que vem a verdadeira história.

Depois de ter dado a uma vizinha o galaró, o galo principal e mais antigo (ainda não me perdoei), uma galinha velha (seguramente com mais de 5 anos) e uma galinha que tinha as patas num estado que considerei irrecuperáveis. Sim, porque todas desenvolveram sarna nas patas. Uma doença provocada por um ácaro. Outra coisa importante é limpar e desinfetar o galinheiro periodicamente e confesso que às vezes faço-o em intervalos bem longos. Adiante, essa doença é tratável com óleo mineral (parafina líquida) e cada 3 dias eu e o meu marido estamos a aplicá-lo nas patas das galinhas. A dificuldade é que não se deixam apanhar com facilidade, por isso temos que o fazer à noite quando dormem. Imaginem que algumas dormem bem alto em cima de uma oliveira, ou seja, temos tido grandes aventuras noturnas.

Agora é que começa a verdadeira história.

Uma galinha preta que sofria desta doença estava numa destas manhãs no galinheiro sem se mexer e tinha os dois olhos fechados e cheios de crostas. Parecia respirar com dificuldade como se estivesse a dar as últimas. Esse era o dia de aniversário da minha filha e íamos ficar fora nessa noite. Então pensei que não queria que a galinha ficasse ali morta dentro do galinheiro por 2 dias e fiz o que sempre faço no caso de ter galinhas mortas (neste caso era quase morta) e levei-a ao cimo do monte onde vive a raposa. Sempre fazemos estas oferendas quando isso acontece. Lá fui eu monte acima. Pousei a galinha debaixo de um grande carvalho como sempre faço, despedi-me dela e ela lá ficou, deitada sem se mexer, como morta.

Os dias passaram e começamos o tratamento às galinhas. Tinha dito aos filhos que a galinha preta provavelmente era menos resistente às doenças do que as outras, foi a única que nasceu preta em várias ninhadas. Já a tinha esquecido e a vida retomava o seu ritmo.

Um dia estava a lanchar na cozinha com a minha filha e batem à porta. Quando abri era uma vizinha com que já não falo há mais de 3 anos (esta dava uma boa história de terror) e por isso apanhei um grande susto. Só me queria dizer que estava uma galinha preta no caminho e que provavelmente era minha (claro que isto foi tudo dito em inglês, mas fica aqui a mensagem traduzida).

Agradeci e olhei para a minha filha. Seria? Será que era a galinha preta que deixei no cimo do monte cega e a dar as últimas? Pedi à minha filha que me desse a mão e me acompanhasse.

E sim e era e tinham passado 5 dias desde que a ofereci à raposa. E a raposa deve ter ido de férias. E a galinha preta mereceu voltar a ter um lugar no galinheiro. E não é só uma galinha, é uma supergalinha.

E obrigada por me ouvir. Já lhe disse que nunca deveria ter começado a ter galinhas?

Amélia Silva

10 dias de silêncio num curso de Vipassana

A primeira vez que ouvi falar num curso deste tipo foi há muitos anos atrás. Achei que era uma oportunidade de me encontrar. Depois percebi que ficar a sós comigo, embora no meio de uma multidão, era a coisa mais difícil que alguma vez tinha feito. Muito duro, mas ainda assim sempre volto.

Há uns dias terminei o meu quinto curso de 10 dias de Vipassana. Sinto-me uma aluna mais madura e já sei o que esperar. Ainda assim cada curso é diferente. Durante o curso é recorrente me arrepender de ter ido e tento prometer a mim mesma que a mim nunca mais me apanham! Mas sempre volto, porque a felicidade no final é indescritível e porque é a única forma de conseguir domar um pouco esta mente selvagem.

Desta vez fiquei num quarto com uma outra rapariga. Não tive oportunidade de falar com ela pois já cheguei tarde e o nobre silêncio estava quase a começar. Durante 5 dias partilhamos as rotinas em silêncio. Ao 5º dia desapareceu. Não mais a vi. Não resistiu. A mente é tão poderosa que está continuamente a desejar que nos vamos embora, é preciso ter uma firme determinação para ficar até ao fim.

Não sei o teu nome. Apenas te via diariamente nos teus gestos lentos e silenciosos. Eras tão silenciosa que às vezes nem sabia se estarias no quarto ou não. Sempre adormecias primeiro do que eu, eu sou um caso sério para dormir. A tua respiração era tão suave que parecias um anjo.

Colocaste lençóis a toda a volta da tua cama como para criar uma área privada. Na noite anterior a te ires embora levantaste esse forte. Achei que tinhas percebido que eu também era silenciosa e que podias confiar em mim.

Afinal fazias era as malas.

Não sei o teu nome. Sei que reparei logo em ti à chegada porque me parecias uma criança e pensei, admitem crianças neste curso? Afinal eras apenas pequenina, com uns pés de bailarina e uns cabelos negros longos. Tinhas um ar de indiana, mas nunca irei saber a tua nacionalidade. Nunca irei saber nada de ti. A menina misteriosa com quem partilhei um quarto por 5 dias.

Quando cheguei ao quarto e não mais te vi, tive um misto de sentimentos. Por um lado tive pena por abandonares um curso tão maravilhoso, por outro lado fiquei contente por ficar com o quarto só para mim. Podia fazer uma rave party cada noite! Just joking! Mas passei a falar baixinho para mim, tinha saudades de ouvir a minha voz.

Onde quer que estejas quero que saibas que te desejo as maiores felicidades, que sejas feliz, estejas em paz e te libertes!

O nascimento de um sonho

 É verdade, depois de ganhar pela terceira vez consecutiva o prémio “Contos de Natal” da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, Braga, Portugal, decidi que era hora e mais que hora de começar a fazer sair os meus escritos da gaveta de papéis. Sim, porque eu sou filha dos anos setenta e estou ainda muito agarrada ao papel. Mas já vou dando alguns passos na tecnologia e aqui está a prova. Com a ajuda da inteligência artificial descobri a plataforma Medium e estou a arquivar aí algumas crónicas.
Ao mesmo tempo vou também publicando neste blogue que tem estado moribundo.

Agora queria fazer algo novo, uma lufada de ar fresco. Não só para publicar artigos de opinião, como também histórias pessoais e contos que vou escrevendo.

Escrevo na cama, ontem fui extrair um dente, um processo doloroso e apesar da dor de cabeça decidi escrever. Talvez com os miolos bem quentes as ideias saiam melhor! Acho que não. Sinto-me cansada, tenho os olhos a arder e a cabeça a latejar, mas a motivação é grande, principalmente porque marido e filhos estão fora numa festa de carnaval e posso aproveitar umas horas sossegada.

Querer ser lida, querer ter reconhecimento, será o sonho de qualquer ser humano? Ser ouvida, eu conto, eu presto para alguma coisa, apesar de toda a infância ter ouvido o contrário. Mas estou a ficar muito melancólica, deve ser da doença ou da alma portuguesa.

Muito bem, irei continuar a fazer sair ideias de mim, irei continuar a encontrar o lugar para a minha palavra. Neste momento encontro-me a escrever um romance juvenil, por agora o título é “O mundo perdido de Meline” e acho que está a ficar bastante interessante. Irei dar a conhecer mais num próximo post.

Obrigada a todos os que leram e apoiaram.

domingo, 22 de dezembro de 2024

 

Além da Taprobana

24 de dezembro de 2024


Querido diário,


o stor de português deu-nos uma tarefa para estas férias de Natal. Até que estou bastante empolgada para fazer este trabalho! Ele quer que imaginemos o que diria o grande poeta Camões se viesse passar o Natal de 2024 na sua muy amada cidade de Lisboa. Espera que dissertemos sobre quais seriam as suas impressões ao regressar à pátria, 500 anos após o seu nascimento. Cá por mim vou convidá-lo para a ceia de Natal e contar-lhe como é lá na escola ter de estudar a sua obra. Ele vai perceber que a malta nova não está muito pelos ajustes ao debruçar-se sobre os Lusíadas. Certamente compreenderá que quase 5 séculos depois do seu canto épico, há demasiado intervalo entre nós e que a sua tão amada língua portuguesa está bué de diferente, embora continue muy formosa. Certamente se arrepiará ao saber que dividimos as suas estrofes em fatias, as dissecamos para melhor as compreendermos. Ao que isto muito o incomodará e me dirá que a poesia é água fresca para beber e não para despedaçar. E se eu lhe contar que durante as aulas é o cabo das tormentas, há bocejos e olhares discretos ao telemóvel, dirá que somos demasiado jovens para compreender o amor vivido e que para entender verdadeiramente a sua obra teríamos que sair da ocidental praia Lusitana e passar além da Taprobana! Mas claro que Camões não sabe como são as nossas escolas e que nunca seria possível empreendermos tal viagem! Ummm... pensando bem, querido diário, talvez é melhor enveredar por outro caminho neste meu trabalho, senão o stor ainda me dá nota zero!

A primeira coisa a fazer é convidar o poeta para a ceia de Natal em minha casa. Depois, conto-lhe como a sua obra, Os Lusíadas, é conhecida nos quatro cantos do mundo e que entre nós é considerada a certidão de nascimento da língua portuguesa. A ele, Luís Vaz de Camões se atribui o título de pai da língua portuguesa e é por isso que no dia 10 de junho, data da sua morte, é feriado nacional e se comemora o dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas. Camões fica comovido perante tão importante reconhecimento do seu trabalho. Proponho-lhe então um passeio pelas ruas de Lisboa, para que veja como estão amplas as avenidas reedificadas após o terramoto de 1755. Camões fica impressionado ao perceber que não há só tempestades no mar e que mesmo em terra o mar mostra a sua força avassaladora. Começamos a nossa visita em Belém, junto à torre que já existia no seu tempo e de onde partiu a armada de Vasco da Gama, imortalizada nos seus poemas. Daí seguimos para o padrão dos descobrimentos, onde o poeta figura na caravela de pedra segurando um exemplar dos Lusíadas, ao lado de outras estátuas de notáveis portugueses. Como não podia deixar de ser, vamos também ao Mosteiro dos Jerónimos onde lhe foi dada a honra de repousar ao lado de reis. Luís Vaz de Camões fica abalado perante tão grande reconhecimento do povo português! Ele que morreu na miséria emociona-se ao ver a sua última morada entre os maiores da sua tão amada pátria! Num terno abraço sussurro-lhe as palavras de um outro grande poeta português, “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Este grande poeta escreveu ainda, “a minha pátria é a língua portuguesa” e o seu nome é Fernando Pessoa e tem também lugar a ser homenageado neste mosteiro. Camões fica impressionado pela beleza destas palavras e percebe que Portugal continua a ser um país de grandes poetas.

Depois, seguimos para a baixa Lisboeta e perto do Chiado paramos a admirar o monumento a Camões, situado na Praça Luís de Camões. Aí diversas pessoas se aproximam e pedem para tirar fotos com o poeta, pensando tratar-se de uma animação de rua. Nem fazem ideia que estão a registar nos seus telemóveis, o autêntico, o verdadeiro poeta da Humanidade! Camões parece ficar um pouco desconfortável com tão grande ajuntamento e também porque nem sequer sabe o que são fotos e telemóveis. Pego-lhe pela mão para o tirar dali, enquanto lhe explico o que são estas pequenas maravilhas da tecnologia. Aproveito para o levar a um pronto a vestir, é que com estas roupas do séc. XVI dá demasiado nas vistas! Camões nem quer acreditar no que vê, roupa já confecionada, pronta a usar! Nas etiquetas repara em nomes de outras pátrias bem distantes e eu explico-lhe que é o resultado do mundo global em que vivemos e que este processo de globalização terá começado na sua época com a epopeia das viagens dos portugueses e de outros povos. Nesta altura, já cansados, irei convidá-lo para irmos para casa, onde os meus pais nos aguardam para uma ceia típica de Natal: o bacalhau à mesa na consoada. Camões perceberá que o mar continua parte da vida dos portugueses.

Já no metro ouvimos uma criança a comentar com a mãe, “aquele senhor tem um olho à Camões”. Rimo-nos, enquanto eu lhe explico que é mais um fenómeno da sua popularidade e fico a ouvi-lo relatar como perdeu o olho direito durante uma batalha em Ceuta. Chegados a casa, e depois das devidas apresentações, (a minha mãe emocionou-se muitíssimo!), Camões detém-se perante a televisão que, infelizmente, estava ligada e apercebe-se que a sua tão amada Jerusalém está envolvida numa guerra sem fim à vista. Emociona-se mais uma vez e fica profundamente pensativo como que sem perceber a devida dimensão desta notícia. Imediatamente desligo a televisão e para o tentar animar e dissipar um pouco a atmosfera dramática ligo o computador e mostro-lhe como, com a ajuda da internet, tudo se faz perto à distância de um clique (só não sei como lhe explicar o que é a internet, só sei que já não posso viver sem ela!). Vemos imagens de uma estátua sua em bronze na ilha de Moçambique, Camões olhando o Índico! Depois viajamos para Macau e vemos imagens do Jardim Luís de Camões, da gruta onde terá vivido e de mais uma homenagem à sua pessoa na forma de um busto e do canto I dos Lusíadas gravado na pedra. Comento que, nunca como nos dias de hoje, as distâncias se tornaram tão curtas. O que na sua época poderia durar meses em perigosas viagens por mar, pode ser feito agora em poucas horas. As naus deram lugar a aviões, “barcos que voam” e os automóveis, que são como cavalos de ferro, encurtam as distâncias. Mas Camões continua pensativo e quando finalmente se decide a falar diz que nunca duvidou que as gentes fossem capazes de tão grandiosos feitos, impensáveis no seu tempo, mas que há coisas que permanecem. E continua dizendo que ainda não fomos capazes de transcender as desavenças com os nossos semelhantes, as doenças e a morte. E que estes é que são os grandes desafios da Humanidade. E foram estas sábias palavras que ouvi daquele grande homem que tanto enalteceu o povo português.

Nisto, somos interrompidos pela voz da minha mãe a chamar para a mesa. Este Natal está a ser incrível, que privilégio ter connosco um tão ilustre convidado! Como eu já previa, durante o jantar, os meus pais quiseram contar-lhe a “sua história”, que eu já ouvi uma centena de vezes. Então, contaram que no seu tempo estudava-se os Lusíadas no nono ano e que nessa altura também ainda não havia telemóveis e era costume passarem-se papelinhos com mensagens nas aulas. Temos que imaginar uma aula de português, com jovens de 14 ou 15 anos e o stor a ler os poemas do canto III, da história de D. Pedro e D. Inês. O meu pai, que já nessa altura estava loucamente apaixonado pela minha mãe, inspirado por aquele momento poético, escreve num papel:


Amores trágicos não são para mim

Gosto de te olhar na aula de português

Com o stor a ler poemas sem fim

Estou apaixonado, será que não vês?

Sei que para ti sou só um amigo

Queria saber se queres namorar comigo.


O papelinho segue de mão em mão, bem dobrado em quatro, como para escrutínio e quando está a chegar ao destino, é intercetado pelo stor de português que o lê em voz alta perante toda a turma. A minha mãe, na altura uma jovem muito envergonhada, toda corada, responde um bem alto “sim” ao que toda a gente aplaude, incluindo o stor!

Camões que ouvia esta história com muita atenção, acrescenta, “amor é fogo que arde sem se ver”, já dizia o poeta! Ao que todos rimos à gargalhada!

E esta noite de Natal tão especial continuou com o nosso amigo Camões (sim, porque agora já somos amigos!) a dar-nos a honra de nos ler os seus Lusíadas, como fazia para o rei D. Sebastião! E chegada a hora de descansar, depois de tantas emoções deste dia, agradeço ao grande poeta pelo brilho tão especial que deu a este Natal de 2024 e agradeço ainda ao stor de português por este desafio e espero que me dê boa nota! Ah! E já me esquecia: Feliz Natal querido diário!


Amélia Silva


terça-feira, 26 de dezembro de 2023

 Este foi o conto de Natal com que venci o concurso de contos de Natal da BLCS 2022


Conto de Natal nas entrelinhas


A minha avó só gostava de finais felizes. Foi assim até ao momento da sua morte. Não sei como conseguiu, mas morreu exatamente no dia 24 de dezembro, véspera de Natal. Era o seu dia preferido, como se passasse todo o ano à espera desse momento. Nessa altura pegava na minha mão e levava-me até ao cimo do outeiro, debaixo da grande carvalha e contava-me quando viu pela primeira vez o meu avô, ali sentado naquela pedra a ler. A vida da minha avó mudou a partir desse momento. Uma vida dedicada à escrita e sempre em busca de finais felizes. A minha avó foi uma grande escritora, uma das maiores do seu tempo e em muito o deveu ao meu avô.

A minha avó vinha de uma família muito pobre, das mais pobres do vilarejo. Tinha sido criada pela sua avó. A sua mãe morrera quando era ainda muito pequena e o seu pai fora para fora para o estrangeiro em busca de trabalho e nunca mais se soube dele. Não cheguei a conhecer a minha bisavó, mas pelo que ouvi dizer, era uma mulher enérgica e sempre bem-disposta. A minha avó tinha-lhe herdado o feitio. À noite, e as noites eram escuras e longas nessa altura, a minha bisavó contava histórias à sua neta ao calor da lareira, até ela adormecer. Eram histórias de uma ambiência fantástica. De bruxas a dançar à meia-noite em clareiras da floresta, de meninas encantadas que saiam para correr o fado transformadas em animais e histórias dramáticas, como as três laranjinhas de oiro, que chegaram até mim e que ainda hoje fazem parte do imaginário coletivo da nossa família. Graças aos esforços da minha bisavó, a minha avó pode estudar até à quarta-classe. A minha avó sempre me contava que a sua professora tinha insistido para que prosseguisse estudos, que era uma menina cheia de talentos, mas ela não podia, a minha bisavó estava a ficar demasiado velha e cansada para andar com o rebanho no monte e precisava dela para assegurar o seu sustento. Essa professora, sem o saber, tinha-lhe mudado a vida. Como prenda de despedida tinha-lhe oferecido um livro. Tratava-se de A Rosa do Adro, um dos romances mais vendidos na época e que era agora o seu primeiro e único livro.

Com as ovelhas no monte a pastar tinha todo o tempo do mundo para ler. Leu esse romance vezes sem conta e invariavelmente chorava no final, pois achava muito triste toda a trama. Foi desde essa altura que a minha avó decidiu que só gostava de finais felizes. Para dura já bastava a vida e ela jurou logo ali que iria ser sempre uma pessoa alegre e bem-disposta fosse o que fosse que a vida lhe trouxesse. Refugiou-se na escrita e criou o seu próprio mundo. Na altura em que sentiu essa vontade incontrolável de criar através da escrita deparou-se com o problema de não ter onde escrever. Desejou do fundo do coração ter um caderno como prenda de Natal. Mas, o seu anseio de escrever era tanto, que olhando para o seu único livro que sempre a acompanhava, pensou que se lá dentro cabia uma história, bem podiam caber duas e foi assim que entre linhas começou a criar o seu primeiro romance. Por altura em que escrevo estas palavras, acaricio o livro já bem amarelecido onde ainda se pode ver a caligrafia da minha avó e quando passo os dedos pelo seu manuscrito entre linhas sinto-a mais perto de mim.

Um dia, como tantos outros em que a minha avó subia a ladeira com o rebanho, viu, sentado no penedo ao lado do grande carvalho, um rapaz que aparentava ser mais velho do que ela. O rapaz estava concentrado a ler. Tímida, mas cheia de curiosidade, aproximou-se. Nunca tinha visto aquele rapaz na aldeia.

Começaram a falar e ela soube que ele estava de visita à sua tia para passar as férias de Natal. Pertencia às do Eido, uma família abastada que vivia numa casa senhorial. Era um rapaz da cidade e estava a ler um livro bastante volumoso. O rapaz falou-lhe do livro que estava a ler. Tratava-se de Os Maias, de Eça de Queirós e estava quase a terminá-lo. A minha avó mostrou-lhe o seu único livro, agora com outra história que tinha crescido dentro.

O rapaz deve ter ficado tão fascinado com a menina pastora que voltou no dia seguinte ao mesmo lugar e no outro dia e sempre todos os dias até ao fim das férias de Natal. No dia da véspera de Natal, e parece que ainda oiço a voz da minha avó a contar, lá estava ele debaixo da grande árvore e segurava um embrulho. Era uma prenda para ela. Ali estava um caderno para que pudesse continuar a inventar as suas histórias. O seu sonho de Natal tinha-se realizado. Também lhe deixou Os Maias, que tinha acabado de ler e prometeu voltar nas férias de verão e trazer-lhe mais livros e cadernos. A minha avó sentiu-se tão profundamente agradecida que lhe deu o único livro que possuía. O rapaz, que viria a ser o meu avô, recusou, pois sabia que não era apenas um livro, era o manuscrito da sua história, ao que a minha avó respondeu e foram essas exatamente as suas palavras, essa história vive dentro de mim, posso voltar a ela sempre que quiser.

Os meses passaram e não havia um só dia em que a minha avó não pensasse no seu amigo. Leu o romance que ele lhe tinha dado. Mais um final dramático que lhe dera ainda mais uma razão para continuar a reescrever o mundo com finais felizes.

Mas nas férias de verão o rapaz não apareceu. O sorriso da minha avó esmoreceu. Continuava entretida a criar as suas histórias. Já tinha usado todo o caderno e agora estava a escrever um romance usando para isso o livro dos Maias, onde tinha muitas páginas de entrelinhas para preencher. Assaltava-a agora a dúvida se todas as histórias teriam um final feliz. E o outono chegou e o grande carvalho começou a ficar despido e a folhagem a cobrir o chão como um tapete. E o coração da minha avó ia ficando cada vez mais apertado, afinal tinha prometido sorrir perante todas as adversidades, o que nem sempre se apresentava fácil.

Até que no dia da véspera de Natal, ao subir o monte com o rebanho, como sempre fazia, o seu coração bateu apressado. Tantas vezes imaginou voltar a ver o rapaz ali sentado no alto a ler que até duvidava do que os seus próprios olhos viam. Mas era verdade, lá estava ele sim, sereno a ler o seu livro. A minha avó apressou-se a juntar-se-lhe e como se o tempo nunca tivesse passado, perguntou-lhe o que estava a ler. Antes de ele lhe mostrar o livro quis desculpar-se por não ter aparecido no verão. Os seus pais tinham decidido passar férias fora do país e ele tinha ficado impedido de cumprir a sua promessa. Mas o importante era que agora estava ali e nesse momento estendeu-lhe o livro que tinha na mão. Na capa a minha avó pode ver o seu próprio nome impresso e quando o começou a folhear viu que era o romance que ela tinha escrito entre as linhas do livro A Rosa do Adro. E logo ali se abraçaram nesse e em todos os anos que se seguiram até terem idade para firmarem a mais linda história de amor de que eu sou testemunha. Uma história de amor sempre com um final feliz.



Amélia Silva


sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

 A última publicação é de 2013! Talvez seja tempo de o reativar!

Venci o concurso de contos de Natal da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva mais uma vez, desta vez a edição de 2023! Estou muito contente! Deixo-vos aqui esta prenda! Abraços grandes!


Tréguas de Natal

O meu filho mais velho chegou muito animado da escola. A época de Natal aproximava-se e a professora de História tinha contado uma história que o impressionara muito. Chamava-se trégua de Natal e dizia que durante a primeira guerra mundial, no dia da véspera de Natal, os soldados na frente das trincheiras tinham parado a guerra e tinham cantado canções de Natal juntos, trocado comidas e bebidas e até tinham feito um jogo de futebol. O meu filho mais novo olhava o irmão cheio de interesse. A cada palavra, os seus olhos se abriam mais e mais e a sua boca esboçava um ténue sorriso de agrado. Depois de ouvir tudo com muito interesse, disse que não se espantava muito, que para ele na época de Natal tudo era possível. Só não sabia se isso poderia acontecer nos países em guerra que não tinham o costume de celebrar o Natal. E olhou para mim como que à espera de uma resposta. Eu abracei-o ternamente, pois via-o muito comovido. Menti-lhe e menti a mim própria com o meu, claro que sim, na época de Natal, tal como dizes, tudo é possível. Mas não era uma verdadeira mentira, eu também sentia que nesta altura havia mais tolerância, mais bondade e amor ao próximo e que se poderiam operar verdadeiros milagres. Era este ambiente mágico que eu guardava do Natal da minha infância: uma noite muito especial de ruas vazias, luz quente e harmoniosa a brotar das casas e um delicioso aroma a banquetes e abraços.

Neste país que tão generosamente nos acolheu como refugiados de guerra, embora me sentisse deslocada, embora me faltasse um pedaço de mim que não sabia se vivo ou morto, ainda assim sentia o milagre de Natal acontecer. Inspirada por este momento tão cheio de amor, enquanto via a esperança espelhada no rosto dos meus filhos, deixei escapar um, eu conheço uma história parecida com esta, também chamada de trégua de Natal. É a história de um soldado chamado Yan que acabou com a guerra. Os meus filhos fitaram-me como quem diz, Yan é o nome do nosso pai e já vais inventar mais uma das tuas histórias para nos consolares. Continuei dizendo que se quisessem a podia contar à noite na hora de deitar. E a verdade é que a contei nessa noite e durante todas as noites que se seguiram até ao dia de Natal. E de cada vez que a contava o enredo crescia. Ia acrescentando um pormenor aqui, outro ali, até que a história ia crescendo e ganhando vida própria. Já me tinha acontecido da idade dos meus filhos inventar uma mentirinha para me desculpar junto dos meus pais e quanto mais a contava, mais detalhes acrescentava, até passar mesmo a acreditar no que estava a dizer. A história inventada passava a confundir-se com a realidade. Desta vez foi isso que aconteceu. Já não sei se é inventada ou se é real. Só o futuro o dirá.

É a história de um soldado raso de nome Yan que ficou conhecido como um verdadeiro herói em tempos de guerra, melhor dizendo, como um herói da humanidade. Yan tinha casado jovem e já tinha tido dois filhos quando foi chamado para ir combater pelo seu país. Yan ficou muito abalado. Ele era do tipo jovial, bem disposto, a assobiar despreocupadamente enquanto trabalhava a terra. Esta era a sua grande paixão, cultivar a terra. Infelizmente ele e todos os outros homens jovens da aldeia um dia foram levados. Nunca tinham sido instruídos para guerrear e de repente viram-se na linha da frente de guerra a viver em trincheiras lamacentas. De um dia para o outro a sua vida mudara. A vida de toda a família mudara. No dia da partida, Yan despediu-se emocionado da sua mulher e filhos. Yan sabia que o conflito aberto ainda agora começara e que se iria prolongar por muito, muito tempo. Só desejava poder voltar um dia a ver a sua família e de não ter de matar ninguém. Yan não tinha sido feito para ser guerreiro. No entanto, sem o saber, viria a ser o maior guerreiro da paz de todos os tempos.

Nesse doloroso dia da despedida, Yan seguiu com os outros homens jovens da aldeia numa carrinha militar. Ao passar pelas cidades pode avaliar o grau de desolação das populações que tentavam sobreviver no meio dos escombros e da poeira, sem eletricidade e sem água potável. Nem nesse momento o coração de Yan se revoltou contra o inimigo. Ele sabia que quem estava do outro lado eram homens que tal como ele não queriam combater. Apenas obedeciam ao desejo dos seus ambiciosos dirigentes. Yan teve ali a certeza de que as guerras eram travadas por pessoas nos seus gabinetes e que eles eram simples peões que como num jogo de xadrez eram usados estrategicamente. Naquele momento sentiu-se nauseado e apeteceu-lhe fugir. Mas iria ficar. O companheirismo que sentia junto dos outros homens que como ele não acreditavam naquela guerra fê-lo ficar. Ele sentia que era preciso fazer algo para reverter a situação, afinal eram milhões de pessoas a sentir como ele. Nalgum momento a paz teria que falar mais alto do que as balas dos canhões.

Os dias que se seguiram foram desastrosos. Escavar trincheiras no meio da lama e comer qualquer coisa só para se manter vivo. Uma vida de escuridão. A única luz era a dos bombardeamentos. Yan não sabia dizer há quanto tempo estaria a perecer naquele ambiente com dezenas de outras pessoas que, como ele, tinham o grande desejo de voltar ao que restaria das suas vidas. Yan tinha perdido a contagem dos dias tenebrosamente iguais. Ele não sabia que era véspera de Natal e que a sua mulher e os seus dois filhos viviam agora em segurança num outro país e que, especialmente nesse dia, pensavam nele com todo o ardor e faziam-lhe chegar todo o seu amor. Apesar da dor que sentia por estar longe de todos os que amava, o seu coração parecia ter um calor diferente nesse dia.

A chuva que quase sempre os acompanhara desde o início do conflito parara, como se todas as lágrimas tivessem secado. A temperatura descera e a terra por baixo dos seus pés gelara. Yan imaginava como seria bom fazer uma fogueira. Ideia impossível de realizar por ser completamente proibido para não ajudar a mostrar as suas posições. Yan pensava que também os homens do outro lado da trincheira deveriam ter os pés gelados.

Nessa altura veio-lhe à cabeça a história da trégua de Natal que aconteceu durante a primeira guerra mundial. Essa história aquecia-lhe o coração. Yan sentia que a sua situação e a dos seus colegas tinha chegado a um limite. Viviam em condições tão desumanas que já não havia nada a perder. Este foi o sinal para a mudança. Yan agiu em plena consciência. Abriu o seu coração e deixou de ter medo. Saiu da trincheira e começou a procurar gravetos.

Os seus companheiros olharam-no como que a interrogar, o que estás tu a fazer, não sabes que não são permitidas fogueiras. Yan com o rosto sereno e cheio de beatitude continuou até conseguir uma grande braçada de paus. Depois amarrou um pano branco no seu capacete para pedir tréguas. Yan queria mostrar que havia outra saída, Yan queria a paz. Saltou para fora da trincheira e foi para a chamada terra de ninguém. Certamente que os homens do lado chamado inimigo já o observavam e também eles se interrogavam o que faria. Calmamente, colocou os paus no chão e sem pressas, foi colocando os galhos um por um como se estivesse a construir uma obra de arte. Depois pegou num isqueiro e acendeu uma fogueira. A chama iluminou o seu rosto vermelho do frio e fez a bandeira branca brilhar. Yan começou a ouvir vozes dos seus companheiros que nervosamente o chamavam. Do lado da trincheira onde estavam os supostos inimigos, o silêncio era aterrador. Yan não sabia como tudo iria acabar. Ele apenas sabia que iria até ao fim. A fogueira foi crescendo e aqueles breves minutos pareceram horas. Enquanto os seus companheiros continuavam a gritar desesperadamente para que voltasse, Yan fazia as suas idas e vindas para junto da fogueira onde ia colocando mais e mais lenha que por ali encontrava. Quando a fogueira já era tão grande que era impossível não ter chamado a atenção de todos, começou por entoar um cântico de Natal da sua meninice. Tinha aprendido com a sua avó e isso dava-lhe conforto e segurança. Alguns dos seus companheiros ainda escondidos pela fortificação, começaram a acompanhar o cântico e nesse momento Yan sentiu que havia esperança. A fogueira crescia à medida que mais e mais vozes se levantavam. Do intitulado lado inimigo também vozes se levantaram. Yan ficou emocionado. Parecia o mesmo cântico, mas numa outra língua. A língua era diferente, mas todos os corações queriam o mesmo. Todos sentiam que era o momento de parar e fazer as pazes. Yan pegou na sua arma que até aí tinha estado a tiracolo e colocou-a na fogueira. Nem foi preciso desarmá-la, pois desde o primeiro dia que Yan não usava munições. A fogueira pareceu contente com este novo alimento e elevou-se mais e mais. Yan comovido fitou o fogo como que hipnotizado. Aos poucos foi vendo sombras a aproximarem-se. Eram os seus companheiros que iam chegando um por um. Descarregavam as armas e atiravam-as para a fogueira numa cerimónia cheia de significado. Yan foi abraçado pelos seus colegas e juntos de mãos dadas fizeram um grande círculo em volta da fogueira. O círculo ia crescendo e o cântico de Natal ganhava mais vigor.

A tensão aumentou à medida que homens do lado inimigo também se começaram a aproximar lentamente. Tinham fardas diferentes e falavam outra língua, mas unidos num só gesto foram lançando as suas armas na fogueira. O milagre acontecia. Homens que como eles não queriam a guerra também se revoltavam. Também eles tinham sido obrigados a deixar tudo o que amavam para combater e agora pareciam dizer, vamos para casa, é Natal! Que venham lutar os nossos dirigentes. Para nós já basta! Nesse momento Yan chorou como nunca tinha chorado. Uma convulsão de choro, um misto de alegria e de esperança na humanidade. O círculo em redor da fogueira ia aumentando e o coro de vozes esperançadas fazia-se ouvir cada vez mais alto.

Os que ainda se escondiam e resistiam a juntar-se a esta revolta viram-se surpreendidos. Aos poucos, esta fogueira engolidora de armas ia-se expandindo como um polvo que, com os seus muitos braços de fogo lhes arrancava as armas. Algumas armas ainda com munições estoiravam como fogo de artifício. Isso chamou a atenção de outros militares que se deslocaram ao terreno para verificar do que se tratava. Vieram por terra, vieram por ar, mas esta fogueira produzia um encantamento que a todos desarmava. Os líderes políticos ao saberem das notícias de tamanha rebelião ficaram em cólera. Desesperados, davam ordens para prender os que se tinham rebelado. Mas ninguém lhes obedecia. Era Natal e não era dia para guerrear. Era Natal, era dia de dar as mãos a todos os irmãos. E como os líderes dos dois países não quiseram ficar a lutar sozinhos, declarou-se o fim da guerra.

Agora era tempo de recomeço, de reconstruir as vidas deixadas para trás, de reconstruir a humanidade inteira. E tudo graças a um homem simples e corajoso. E dizem que quando esta milagrosa fogueira se extinguiu, depois de ter engolido todo o armamento de guerra, no seu lugar ficou um magnífico monumento. Um monumental coração. Um coração tão monumental capaz de ser avistado do espaço.



Amélia Silva