Além da Taprobana
24 de dezembro de 2024
Querido diário,
o stor de português deu-nos uma
tarefa para estas férias de Natal. Até que estou bastante empolgada
para fazer este trabalho! Ele quer que imaginemos o que diria o
grande poeta Camões se viesse passar o Natal de 2024 na sua muy
amada cidade de Lisboa. Espera que dissertemos sobre quais seriam as
suas impressões ao regressar à pátria, 500 anos após o seu
nascimento. Cá por mim vou convidá-lo para a ceia de Natal e
contar-lhe como é lá na escola ter de estudar a sua obra. Ele vai
perceber que a malta nova não está muito pelos ajustes ao
debruçar-se sobre os Lusíadas. Certamente compreenderá que quase 5
séculos depois do seu canto épico, há demasiado intervalo entre
nós e que a sua tão amada língua portuguesa está bué de
diferente, embora continue muy formosa. Certamente se arrepiará ao
saber que dividimos as suas estrofes em fatias, as dissecamos para
melhor as compreendermos. Ao que isto muito o incomodará e me dirá
que a poesia é água fresca para beber e não para despedaçar. E se
eu lhe contar que durante as aulas é o cabo das tormentas, há
bocejos e olhares discretos ao telemóvel, dirá que somos demasiado
jovens para compreender o amor vivido e que para entender
verdadeiramente a sua obra teríamos que sair da ocidental praia
Lusitana e passar além da Taprobana! Mas claro que Camões não sabe
como são as nossas escolas e que nunca seria possível empreendermos
tal viagem! Ummm... pensando bem, querido diário, talvez é melhor
enveredar por outro caminho neste meu trabalho, senão o stor ainda
me dá nota zero!
A primeira coisa a fazer é convidar
o poeta para a ceia de Natal em minha casa. Depois, conto-lhe como a
sua obra, Os Lusíadas, é conhecida nos quatro cantos do mundo e que
entre nós é considerada a certidão de nascimento da língua
portuguesa. A ele, Luís Vaz de Camões se atribui o título de pai
da língua portuguesa e é por isso que no dia 10 de junho, data da
sua morte, é feriado nacional e se comemora o dia de Portugal,
Camões e das Comunidades Portuguesas. Camões fica comovido perante
tão importante reconhecimento do seu trabalho. Proponho-lhe então
um passeio pelas ruas de Lisboa, para que veja como estão amplas as
avenidas reedificadas após o terramoto de 1755. Camões fica
impressionado ao perceber que não há só tempestades no mar e que
mesmo em terra o mar mostra a sua força avassaladora. Começamos a
nossa visita em Belém, junto à torre que já existia no seu tempo e
de onde partiu a armada de Vasco da Gama, imortalizada nos seus
poemas. Daí seguimos para o padrão dos descobrimentos, onde o poeta
figura na caravela de pedra segurando um exemplar dos Lusíadas, ao
lado de outras estátuas de notáveis portugueses. Como não podia
deixar de ser, vamos também ao Mosteiro dos Jerónimos onde lhe foi
dada a honra de repousar ao lado de reis. Luís Vaz de
Camões fica abalado perante
tão grande reconhecimento do povo português! Ele que morreu na
miséria emociona-se ao ver a sua última morada entre os maiores da
sua tão amada pátria! Num terno abraço sussurro-lhe as palavras de
um outro grande poeta português, “tudo vale a pena quando a alma
não é pequena”. Este grande poeta escreveu ainda, “a minha pátria
é a língua portuguesa” e o seu nome é Fernando Pessoa e tem
também lugar a ser homenageado neste mosteiro. Camões fica
impressionado pela beleza destas palavras e percebe que Portugal
continua a ser um país de grandes poetas.
Depois, seguimos para a baixa Lisboeta
e perto do Chiado paramos a admirar o monumento a Camões, situado na
Praça Luís de Camões. Aí diversas pessoas se aproximam e pedem
para tirar fotos com o poeta, pensando tratar-se de uma animação de
rua. Nem fazem ideia que estão a registar nos seus telemóveis, o
autêntico, o verdadeiro poeta da Humanidade! Camões parece ficar um
pouco desconfortável com tão grande ajuntamento e também porque
nem sequer sabe o que são fotos e telemóveis. Pego-lhe pela mão
para o tirar dali, enquanto lhe explico o que são estas pequenas
maravilhas da tecnologia. Aproveito para o levar a um pronto a
vestir, é que com estas roupas do séc. XVI dá demasiado nas
vistas! Camões nem quer acreditar no que vê, roupa já
confecionada, pronta a usar! Nas etiquetas repara em nomes de outras
pátrias bem distantes e eu explico-lhe que é o resultado do mundo
global em que vivemos e que este processo de globalização terá
começado na sua época com a epopeia das viagens dos portugueses e
de outros povos. Nesta altura, já cansados, irei convidá-lo para
irmos para casa, onde os meus pais nos aguardam para uma ceia típica
de Natal: o bacalhau à mesa na consoada. Camões perceberá que o
mar continua parte da vida dos portugueses.
Já no metro ouvimos uma criança a
comentar com a mãe, “aquele senhor tem um olho à Camões”.
Rimo-nos, enquanto eu lhe explico que é mais um fenómeno da sua
popularidade e fico a ouvi-lo relatar como perdeu o olho direito
durante uma batalha em Ceuta. Chegados a casa, e depois das devidas
apresentações, (a minha mãe emocionou-se muitíssimo!), Camões
detém-se perante a televisão que, infelizmente, estava ligada e
apercebe-se que a sua tão amada Jerusalém está envolvida numa
guerra sem fim à vista.
Emociona-se mais uma vez
e fica profundamente pensativo como que sem perceber a devida
dimensão desta notícia. Imediatamente desligo a televisão e para o
tentar animar e dissipar um pouco a atmosfera dramática ligo o
computador e mostro-lhe como, com a ajuda da internet, tudo se faz
perto à distância de um clique (só não sei como lhe explicar o
que é a internet, só sei que já não posso viver sem ela!). Vemos
imagens de uma estátua sua em bronze na ilha de Moçambique, Camões
olhando o Índico! Depois viajamos para Macau e vemos imagens do
Jardim Luís de Camões, da gruta onde terá vivido e de mais uma
homenagem à sua pessoa na forma de um busto e do canto I dos
Lusíadas gravado na pedra. Comento que, nunca como nos dias de hoje,
as distâncias se tornaram tão curtas. O que na sua época poderia
durar meses em perigosas viagens por mar, pode ser feito agora em
poucas horas. As naus deram lugar a aviões, “barcos que voam” e
os automóveis, que são como cavalos de ferro, encurtam as
distâncias. Mas Camões continua pensativo e quando finalmente se
decide a falar diz que nunca duvidou que as gentes fossem capazes de
tão grandiosos feitos, impensáveis no seu tempo, mas que há coisas
que permanecem. E continua dizendo que ainda não fomos capazes de
transcender as desavenças com os nossos semelhantes, as doenças e a
morte. E que estes é que são os grandes desafios da Humanidade. E
foram estas sábias palavras que ouvi daquele grande homem que tanto
enalteceu o povo português.
Nisto, somos interrompidos pela voz da
minha mãe a chamar para a mesa. Este Natal está a ser incrível,
que privilégio ter connosco um tão ilustre convidado! Como eu já
previa, durante o jantar, os meus pais quiseram contar-lhe a “sua
história”, que eu já ouvi uma centena de vezes. Então, contaram
que no seu tempo estudava-se os Lusíadas no nono ano e que nessa
altura também ainda não havia telemóveis e era costume passarem-se
papelinhos com mensagens nas aulas. Temos que imaginar uma aula de
português, com jovens de 14 ou 15 anos e o stor a ler os poemas do
canto III, da história de D. Pedro e D. Inês. O meu pai, que já
nessa altura estava loucamente apaixonado pela minha mãe, inspirado
por aquele momento poético, escreve num papel:
Amores trágicos não são para mim
Gosto de te olhar na aula de português
Com o stor a ler poemas sem fim
Estou apaixonado, será que não vês?
Sei que para ti sou só um amigo
Queria saber se queres namorar comigo.
O papelinho segue de mão em mão, bem
dobrado em quatro, como para escrutínio e quando está a chegar ao
destino, é intercetado pelo stor de português que o lê em voz alta
perante toda a turma. A minha mãe, na altura uma jovem muito
envergonhada, toda corada, responde um bem alto “sim” ao que toda
a gente aplaude, incluindo o stor!
Camões que ouvia esta história com
muita atenção, acrescenta, “amor é fogo que arde sem se ver”,
já dizia o poeta! Ao que todos rimos à gargalhada!
E esta noite de Natal tão especial
continuou com o nosso amigo Camões (sim, porque agora já somos
amigos!) a dar-nos a honra de nos ler os seus Lusíadas, como fazia
para o rei D. Sebastião! E chegada a hora de descansar, depois de
tantas emoções deste dia, agradeço ao grande poeta pelo brilho tão
especial que deu a este Natal de 2024 e agradeço ainda ao stor de
português por este desafio e espero que me dê boa nota! Ah! E já
me esquecia: Feliz Natal querido diário!
Amélia Silva