Um blogue que é quase um diário, mas onde não escrevo todos os dias. Uma tentativa de ler a vida.
quarta-feira, 23 de julho de 2008
Cuentame un cuento Conta-me um conto 2
Ali estava o livro abandonado em cima da mesa. Na verdade tinha muita vontade de ver do que tratava. Passei as mãos pela capa. Era de tecido áspero. Senti a tela que o envolvia, de um creme sujo, gasto pelo tempo. Em baixo relevo estava esculpido o título. O artista seguia com os seus frascos de tintas multicolores. Ia-as combinando na enorme tela ao som da música. O cheiro a químicos resultava um pouco desagradável. Menos mal que estavamos ao ar livre.Os meus amigos adivinharam-me os penasmentos. Entreolhamo-nos e sorrimos. Logo voltamos a admirar a criação espontânea que ia surgindo.
Com os dedos percorri cada letra. Pauline.
terça-feira, 22 de julho de 2008
Cuentame un cuento Conta-me um conto 1
E assim começou. Uma ronda de livros entre desconhecidos. Numa pequena associação havia começado um projecto de troca de livros. Chamava-se ronda de livros e cada um podia levar livros livremente para casa a câmbio de deixar outro. Nessa noite fui tomar uma cervejita com os amigos. Ia ver um ilustrador que compunha ao som da música. O espectáculo estava atrasado. As prateleiras de livros estavam por todas as partes. Esperava os meus amigos e observava-os. Ia passando os olhos e reconhecendo alguns; o vermelho e o negro, a jangada de pedra, o crime do padre amaro. Uma grande variedade. Estava de verdade com vontade de pegar algum poema enquanto esperava. Mas de entre todos, um me chamava. Quando dei por mim já tinha o braço estendido e estranhamente sentia que o livro me esperava. Queria-me com todas as suas forças. Olhei a capa. Mas que livro era este que me queria tanto?
segunda-feira, 21 de julho de 2008
Assim é mais fácil de entender
Sabe Deus o que quero dizer
Obrigado por saberes cuidar de mim,
Tratar de mim, olhar para mim, escutar quem sou,
e se ao menos tudo fosse igual a ti
Eu já não sei se sei o que é sentir o teu amor,
não sei o que é sentir, se por falar falei
Pensei que se falasse era fácil de entender
É o amor, que chega ao fim, um final assim,
assim é mais fácil de entender.
Trocito de Fácil de Entender, The Gift
domingo, 20 de julho de 2008
sábado, 19 de julho de 2008
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Venenos de Deus, Remédios do Diabo
Fala de Bartolomeu Sozinho, personagem de Venenos de Deus, Remédios do Diabo, de Mia Couto, Editorial Caminho.
terça-feira, 15 de julho de 2008
A minha filha adoptiva
segunda-feira, 14 de julho de 2008
¡Una joya!
El pájaro del que voy a hablar es el búho. El búho no ve de día y de noche es más ciego que un topo.
No sé gran cosa del búho, así que continuaré con otro animal que voy a elegir.
La vaca
La vaca es un mamífero. Tiene seis lados: el derecho, el de la izquierda, el de arriba, el de abajo; el de la parte de atrás tiene un rabo del que cuelga una brocha. Con esta brocha se espantan las moscas para que no caigan en la leche.
La cabeza sirve para que le salgan los cuernos y además porque la boca tiene que estar en alguna parte. Los cuernos son para combatir con ellos. Por la parte de abajo tiene la leche. Está equipada para que se la pueda ordeñar.
Cuando se la ordeña, la leche viene y ya no se para nunca. ¿Cómo se las arreglará la vaca? Nunca he podido comprenderlo, pero cada vez sale con mayor abundancia.
El marido de la vaca es el buey. El buey no es un mamífero porque no tiene mamas. La vaca no come mucho; pero lo que come, lo come dos veces, así que ya tiene bastante.
Cuando tiene hambre y cuando no dice nada es que está llena por dentro de hierba.
Sus patas le llegan hasta el suelo. La vaca tiene el olfato muy desarrollado, por lo que se la puede oler desde lejos. Por eso es por el que el aire del campo es tan sano.
Niño de 8 años.
Here I Go Again!
I LET LOVE IN I LET LOVE IN
domingo, 13 de julho de 2008
La ciudad de las mariposas
Um eco
baixinho
como um murmúrio
um eco eco eco
um nome como um soco
nos lábios que o articulam
um nome
nauseabundo entre os nausabundos
um nome qualquer
feito de todos os nomes
um nome
que envenena a língua
e deita por terra todos os teus sonhos.
Um nome a apagar
dor por dor
a tragar
letra por letra
um nome que AMANHÃ
serás capaz de dizer
e repetir e repetir
na batida deste poema
como um eco eco eco
um nome
que é apenas um nome
onde cada letra é um gume
cada vez menos
cada vez menos
afiado
um nome que já és capaz de pronunciar
porque o AMANHÃ
é já o AGORA.
sábado, 12 de julho de 2008
sexta-feira, 11 de julho de 2008
morcegos e cegonhas
Não sei o que passou ontem à noite. Um português de S. Tomé a contar contos e um guineense a tocar Kora. Griotizando, se chamava o espectáculo. No claustro da Casa das Conchas olho o céu. Negro já com o cair da noite. Negro e quente. Vejo morcegos a bailar e cagonhas brancas a bater castanholas ao som da música. Nos meus ouvidos vai entrando a história do Zé Manel. Eu o prenunciava correctamente na minha portuguesice. Eu também já estive em S. Tomé e vi esse pássaro despertador que toca castanholas com as asas. Voei até à minha cama e dormi profundamente. De manhã não sabia muito bem o que se tinha passado.
quinta-feira, 10 de julho de 2008
quarta-feira, 9 de julho de 2008
sexta-feira, 4 de julho de 2008
Memória das Minhas Putas Tristes
Gabriel García Márquez
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Ilusión
El mismo tronco de árbol puede ser visto de diferentes maneras.
El tronco de árbol es la realidad, y las visiones del tronco son las proyecciones de las diversas mentes.
Existe un solo ser, el selft, que es inmutable.
Swami Vivekananda
segunda-feira, 30 de junho de 2008
Como um romance
“É preciso ler”.
Este livro ajuda-nos a ver que o prazer de ler não está muito longe, que é fácil de encontrar, pode apenas estar escondido.
“É preciso ler”.
Ensina-nos a perceber que caminhos podemostomar para o encontrar. E parece tão simples.
“É preciso ler”.
Como a historinha que é lida todas as noites, sem se exigir nada em troca, como se de um presente se tratasse.
“É preciso ler”.
Criar o desejo de aprender sem esperar contrapartidas, sem nos apressarmos em obter resultados. E parece tão simples.
“É preciso ler”.
Neste pequeno livro que se lê como um romance, o dogma: “É preciso ler! É preciso ler!”, é transformado em: “É preciso dar-lhes o desejo de ler!”.
“É preciso dar-lhes o desejo de ler!”.
Dirigido a todos os que querem ser bons pedagogos, sem grande preocupação com pedagogia nenhuma. Aos profetas da desgraça, que culpam a televisão e os jogos electrónicos, este livro não dá a mínima importância.
“É preciso dar-lhes o desejo de ler!”.
O autor termina com os 10 direitos do leitor, direitos de que nos valemos a nós próprios e que são válidos também para os nossos filhos, os nossos alunos, os nossos jovens. Vai ficar surpreendido.
1- O direito de não ler – muitos não lêem porque disso não sentem necessidade, sem que por isso se tornem menos “humanos”.
2- O direito de saltar páginas – porque nos apetece, pelas razões que são só nossas.
3- O direito de não acabar um livro – pôr o livro de lado para um dia voltar a ele ou não.
4- O direito de reler – a alegria de saborear as mesmas palavras com novas descobertas.
5- O direito de ler não importa o quê - bons e maus romances, ao gosto de cada um.
6- O direito de amar os “heróis” dos romances - deixemo-nos levar pelas emoções!
7- O direito de ler não importa onde - sim, mesmo nas latrinas.
8- O direito de saltar de livro em livro - abrir os livros e debicar aqui e ali.
9- O direito de ler em voz alta - dar vida aos livros, colocar as palavras na boca antes de as meter na cabeça.
10- O direito de não falar do que se leu - aqui exerço este meu direito e mais não digo.
PENNAC, Daniel (2002): Como um romance. Porto: Asa Editores.
Discurso!
Este discurso merece ser lido, afinal não é todos os dias que um brasileiro dá um 'baile' educadíssimo aos Americanos...
Durante um debate numa universidade dos Estados Unidos o actual Ministro da Educação CRISTOVAM BUARQUE foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazónia (ideia que surge com alguma insistência em alguns sectores da sociedade americana e que muito incomoda os brasileiros). Um jovem americano fez a pergunta dizendo que esperava a resposta de um Humanista e não de um Brasileiro. Esta foi a resposta de Cristovam Buarque:
'De facto, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazónia.
Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse património, ele é nosso. Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazónia, posso imaginar a sua internacionalização, como também a de tudo o mais que tem importância para a humanidade. Se a Amazónia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro... O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazónia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extracção de petróleo e subir ou não seu preço.
Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazónia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono ou de um país. Queimar a Amazónia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.
Antes mesmo da Amazónia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo génio humano. Não se pode deixar que esse património cultural, como o património natural Amazónico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país.
Não faz muito tempo, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.
Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milénio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhattan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.
Se os EUA querem internacionalizar a Amazónia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos também todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil. Nos seus debates, os actuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de COMER e de ir à escola.
Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como património que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazónia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um património da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver.Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazónia seja nossa. Só nossa!'
ESTE DISCURSO NÃO FOI PUBLICADO. AJUDE-NOS A DIVULGÁ-LO porque é muito importante ... e porque foi CENSURADO!
terça-feira, 24 de junho de 2008
As atrocidades
Antony and the johnsons
Veja o filme, se tiver coragem, é muito duro e assine a petição.
São as atrocidades as atrocidades
http://www.petatv.com/tvpopup/video.asp?video=fur_farm&Player=wm&speed=med
sábado, 21 de junho de 2008
Querido pai
BOAS FÉRIAS MEUS AMORES
sexta-feira, 13 de junho de 2008
a alegria de passar os dias inteirinhos a brincar!
a princesinha
talvez adopte a querida mãe que a acolheu com tanto carinho. chama-se kinder e é very kind.
segunda-feira, 9 de junho de 2008
vai ficar bem
quinta-feira, 5 de junho de 2008
força de viver
quarta-feira, 4 de junho de 2008
não sei bem
quinta-feira, 29 de maio de 2008
segunda-feira, 26 de maio de 2008
quarta-feira, 7 de maio de 2008
segunda-feira, 5 de maio de 2008
domingo, 4 de maio de 2008
sábado, 26 de abril de 2008
26 de Abril
Swami Vivekananda
In Sabidurías, 365 pensamientos de maestros de la India
Un regalo de Javi, mi amigo de toda la vida.
sexta-feira, 25 de abril de 2008
deixa lá
quarta-feira, 23 de abril de 2008
I LET LOVE IN I LET LOVE IN
Thank you for playing the old (new) songs
OBRIfuckinGADO
You´re a great storyteller, terror fairy tales, the best!
OBRIfuckinGADO
Nick Cave and The Bad Seeds
Coliseu do Porto, 22 de Abril
A borboleta Leonoreta que às vezes é meia cegueta
quinta-feira, 17 de abril de 2008
ANTONY & THE JOHNSONS You Are My Sister
So innocent, so full of need
There were times we were friends but times I was so cruel
Each night I'd ask for you to watch me as I sleep
I was so afraid of the night
You seemed to move through the places that I feared
You lived inside my world so softly
Protected only by the kindness of your nature
You are my sister
And I love you
May all of your dreams come true
We felt so differently then
So similar over the years
The way we laugh the way we experience pain
So many memories
But theres nothing left to gain from remembering
Faces and worlds that no one else will ever know
You are my sister
And I love you
May all of your dreams come true
I want this for you
They're gonna come true (gonna come true)
http://www.youtube.com/watch?v=S-NziGE6DVY&feature=related
quarta-feira, 9 de abril de 2008
que bonito
fuemos novios
nos besamos nos amamos
fuemos novios
que bonito
la vida sigue su curso
quinta-feira, 27 de março de 2008
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
é preciso não esquecer
estão aí para serem colhidas
A menina pensa demais
sim, a menina pensa demais
É bonito, é bonito, é bonito
se não fosse a menina pensar demais
é porque não era a menina
sábado, 16 de fevereiro de 2008
Echar de menos
tu mirada
echo mucho de menos
tus manos heladas
echo mucho de menos
tus apretones
echo mucho de menos
tu mirada
echo mucho de menos
cuando cantas
echo mucho de menos
tu nariz que antes se movía
echo mucho de menos
tu mirada
echo mucho de menos
ver una peli abrazadita
echo mucho de menos
tu mirada
echo mucho de menos
tus padres
mis amigas
la baba de pedro
nuestra huerta
las coles gallegas y calabazas
tus postres
el olor de jazmín
la cueva de l’águila
mirar las estrellas
coger higos
el parc túria
mi bici roja
te echo mucho de menos cielo
vos echo mucho de menos Viky y José
vos echo mucho de menos Laura, Dany, Ester y Rafa
te echo mucho de menos Leyla
te echo mucho de menos Vaida
te echo mucho de menos Ana Claudia, Amparo y Lola
te echo mucho de menos Adriana
vos echo mucho de menos Lola y Majé
we’ll see each other soon
someday somewhere
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
Adeus que me vou embora
Adeus que me vou embora
Adeus que me embora vou
Adeus que me embora vou
Vou daqui para a minha terra
Vou daqui para a minha terra
que eu desta terra não sou
que eu desta terra não sou
Tenho minha mãe à espera
Tenho minha mãe à espera
Cansada de me esperar
Cansada de me esperar
Naquela encosta da serra
Naquela encosta da serra
Vamos ser dois a chorar
Vamos ser dois a chorar
À espera tenho o meu pai
À espera tenho o meu pai
aos anos que não vejo
aos anos que não vejo
O tempo que vai durar
O tempo que vai durar
O meu abraço, o meu beijo
O meu abraço, o meu beijo
Vim solteiro e vou solteiro
Vim solteiro e vou solteiro
vou livre de corações
vou livre de corações
Se alguém me quiser prender
Se alguém me quiser prender
já não vou dizer que não
já não vou dizer que não
Adeus que me vou embora
Adeus que me vou embora
Adeus que me embora vou
Adeus que me embora vou
António Variações
está tudo conforme, obrigada António, só muda o se alguém me quiser prender, seguramente vou dizer que não.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
Pequeno poema
ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...
Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...
Sebastião da Gama
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Bird Girl
I've got my heart
Here in my hands now
I've been searching
For my wings some time
I'm gonna be born
Into soon the sky
'Cause I'm a bird girl
And the bird girls go to heaven
I'm a bird girl
And the bird girls can fly
Bird girls can fly
Antony and The Johsons
Jesus
- Sei um ninho!
A mãe levantou para ele os olhos negros, a interrogar. O Pai, esse, perdido no alheamento costumado, nem ouviu. Mas o pequeno, ou para responder à Mãe, ou para acordar o Pai, repetiu:
- Sei um ninho!
O velho ergueu finalmente as pálpebras pesadas, e ficou atento, também.
A criança, então, um tudo-nada excitada, contou. Contou que à tarde, na altura em que regressava a casa com a ovelha, vira sair um pintassilgo de dentro dum grande cedro. E tanto olhara, tanto afiara os olhos para a espessura da rama, que descobrira o manhuço negro, lá no lato, numa galha.
A mãe bebia as palavras do filho, a beijá-lo todo com a luz da alma. O Pai regressou ao caldo.
Mas o menino continuou. Disse que então prendera a cordeira a uma giesta e trepara pela árvore acima.
De novo o Pai levantou as pálpebras cansadas, e ficou tal e qual a mãe inquieto, com a respiração suspensa, a ouvir.
E o pequeno ia subindo. O cedro era enorme, muito grosso e muito alto. E o corpito, colado a ele, trepava devagar, metade de cada vez. Firmava primeiro os braços; e só então as pernas avançavam até onde podiam. Aí paravam, fincadas na casca rija.
A subida levou tempo. Foi até preciso descansar três vezes pelo caminho, nos tocos duros dos ramos. Por fim, o resto teve de ser a pulso, porque eram já só vergônteas as pernadas da ponta.
Transidos, nem o Pai nem a Mãe diziam nada. Deixavam, apavorados, mudos, que o pequeno chegasse ao cimo, à crista, e pusesse os olhos inocentes no ovo pintado. O ninho tinha só um ovo.
Aqui, o menino fez parar o coração dos pais. Inteiramente esquecido da altura a que estava, procedera como se viver ali, perto do céu fosse viver na terra, sem precisão dos braços cautelosos agarrados a nada. E ambos viram num relance o pequeno rolar, cair do alto, da ponta do cedro, no chão duro e mortal de Nazaré.
Mas a criança, apesar de mostrar, sem querer, que de todo se alheara do abismo sobre que pairava, não caiu. Acontecera outra coisa. Depois de pegar no ovo, de contente, dera-lhe um beijo. E, ao simples calor da sua boca, a casca estalara ao meio e nascera lá de dentro um pintassilgo depenadinho.
E o menino contava esta maravilha com a sua inocência acostumada, como quando repetia a história de José do Egipto, que ouvira ler a um vizinho.
Por fim, pôs amorosamente o passarinho entre a penugem da cama, e desceu. E agora, um nada comprometido, mas cheio da sua felicidade, sabia um ninho.
A ceia acabou num silêncio carregado. Só depois, à volta do lume quente do cepo de oliveira em brasido, é que os pais disseram um ao outro algumas palavras enigmáticas, que o pequeno não entendeu. Mas para quê entender palavras assim? Queria era guardar dentro de si a imagem daquele passarinho depenado e pequenino. Isso, e ao mesmo tempo olhar cheio de deslumbramento os dedos da Mãe, que, alvos de neve, fiavam linho.
E tanto se encheu da imagem do pintassilgo, tanto olhou a roca e o fuso, e aqueles dedos destros e maravilhosos, que daí a pouco deixou cair a cabeça tonta de sono no regaço virgem da Mãe.
TORGA, Miguel (2002). Bichos. Lisboa: Publicações D. Quixote. Págs. 73 a 75.
terça-feira, 22 de janeiro de 2008

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
Adeus, gasolina!
Era uma vez um país à beira-mar, com florestas, campos, cidades e gentes. Rasgado por estradas, cortado por ruas, cheio de automóveis por toda a parte. Os jardins tinham sido alcatroados para parques de estacionamento. As estátuas deitadas abaixo para erguer bombas de gasolina.
Luísa Ducla Soares
Esta autora ainda não sabe que a admiro muito, neste momento estou a trabalhar sobre sobre algumas das suas obras y que bien lo estoy pasando!
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.
Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama,
nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...
Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos
sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
DEFICIÊNCIAS
'Louco' é quem não procura ser feliz com o que possui.
'Cego' é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria, e só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.
'Surdo' é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.
'Mudo' é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.
'Paralítico' é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda.
'Diabético' é quem não consegue ser doce.
'Anão' é quem não sabe deixar o amor crescer. E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois:
A amizade é um amor que nunca morre.
Mário Quintana
quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
Diário de um professor
“O que interessa mais que tudo é ensinar a ler. Ler sem que passe despercebido o mais importante – e às vezes é pormenor que parece uma coisinha de nada. Ler, despindo cada palavra, cada frase, auscultando cada entoação de voz para perceber até ao fundo a beleza ou o tamanho do que se lê. É também de interesse primário levar os rapazes a amar as palavras – mostar como são cheias de beleza, outras como são engraçadas, outras como são doces. Ora para amar as palavras e para, a seguir, amar a leitura, é aconselhável, como diria La Palice, não fazer desamar as palavras, nem fazer desamar a leitura. Que amor terá uma criança por uma palavra que a fez suar, levar descomposturas, levar reguadas?”(...)
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

era uma vez um senhor que queria ser golfinho
não
era uma vez um senhor que tinha um golfinho muito mau muito mau
muito mau
também não
é melhor assim
era uma vez um golfinho muito simpático que tinha um senhor num aquário muito pequenino que tratava com mil cuidados todos os dias antes de sair para o emprego o golfinho dava um lauto pequenino almoço ao senhor e nunca se esquecia de lhe deixar a televisão ligada
um dia chegou a casa pendurou o chapéu e dirigiu-se para o aquário com uma das mãos atrás das costas falando sempre baixinho para não assustar o senhor e disse-lhe assim trago um presentinho para ti uma surpresa muito linda para tu veres como eu gosto de ti
curioso o senhor nadou até ficar com a cabeça fora de água olhando para um embrulhinho que o amigo golfinho tinha começado a desembrulhar cautelosamente por fim abriu uma caixinha de vidro fosco e meteu a mão lá dentro
ah já me esquecia de dizer que o senhor era alto era solteiro e chamava-se josé
(...)
transcrito tal e qual do original FRANCO, José António. (2005) Histórias e Morais. 1ª edição, Coimbra.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
ANIMAL JAIL
Agora que se aproxima o Natal, não vá a circos que tenham animais. Viva a liberdade para todos
segunda-feira, 3 de dezembro de 2007
quarta-feira, 28 de novembro de 2007
quarta-feira, 21 de novembro de 2007
Mariza - Oh gente da minha terra
agora é que eu percebi, esta tristeza que trago, foi de vós que a recebi.
Fados de Carlos Saura
Ontem no Palau de Les Arts Reina Sofia, assisti à estreia deste filme, emocionante para uma portuguesa longe de casa. Não deixem de ver.
terça-feira, 20 de novembro de 2007
poemas oferecidos

segunda-feira, 19 de novembro de 2007
Num túnel de acesso ao metro
VOY A VER SI ME ENCUENTRO
DENTRO DE MI PIEL
Y COMPRENDO
POR K NADA PUEDO ENTENDER
YA K ME RESULTA RARO TODO LO NORMAL
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
Instantes
Yo fui una de esas personas que vivió sensata y prolíficamente cada minuto de su vida; claro que tuve momentos de alegría. Por si no lo saben, de eso esta hecho la vida, solo de momentos; no te pierdas el ahora.
Yo era uno de esos que nunca iban a ninguna parte sin un termómetro, una bolsa de agua caliente, un paraguas y un paracaídas; si pudiera volver a vivir, viajaría más liviano.
Si pudiera volver a vivir, comenzaría a andar descalzo a principios de la primavera y seguiría así hasta concluir en otoño. Daría más vueltas en calesita, contemplaría más amaneceres y jugaría con más niños, si tuviera otra vez la vida por delante. Pero ya ven, tengo 85 años y me estoy muriendo...
Desconheço o autor, alguns atribuem a Jorge Luis Borges, porém há controvérsia. O que eu sei é que tenho 36 anos e ainda há tempo.
terça-feira, 6 de novembro de 2007
La vida es sueño

(...)
Los pensamientos del príncipe constituyen una profunda reflexión sobre la fugacidad de la vida, en la que, siendo todo sueño, es mejor reprimir la fiereza de carácter, la furia y la ambición, ya que el mundo es algo tan singular que el vivir sólo es soñar, y así se lo enseña a Segismundo la experiencia. Porque incluso el rey sueña que es rey y que, como tal, ordena y manda y, engañado, en el viento escribe sus glorias, hasta que la muerte lo reduce todo a cenizas. Siendo así, ¿qué importa reinar si al fin hay que despertar en el sueño de la muerte? Y lo mismo le sucede al rico, que sueña sus riquezas; y al pobre, que padece su miseria y su pobreza; y al que se afana por todo, y al que agravia y ofende, pues en el mundo, en conclusión, todos soñamos lo que somos, aunque nadie se dé cuenta.
(...)
CALDERON DE LA BARCA, La vida es sueño
segunda-feira, 5 de novembro de 2007
A vida
A Vida
Fazer da vida um processo de gestos simples:
De manhã, subir às árvores,
esperar a chegada dos pássaros,
beber alguma água do céu, distrair os caçadores,
ouvir o vento mais alto nas copas,
colher uma flor do campo para os olhos amados.
Ao meio-dia, olhar na direcção do sol, correr no campo,
comer frutos, sementes de trigo, velar os cursos de água,
cuidar dos animais feridos.
Ao sol-poente, regar as plantas para o alimento da noite,
preparar alguma terra para as sementeiras,
podar a vinha,
fazer alguns enxertos,
preparar alporques, tocar uma pedra
para sentir a força do universo.
À noite, sentado na terra, olhar o céu,
contar, outra vez, as estrelas,
meditar sobre os milhões de anos-luz que nos religam,
chorar sobre a velocidade da luz,
cantar para as aves nocturnas, chamar os lobos
dormir para ver nos sonhos
outras possibilidades de sobrevivência.
Firmino Mendes
“Um segredo guarda o mundo”
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
Há Metafísica Bastante em Não Pensar em Nada
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
"Constituição íntima das coisas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
Daniel Pennac - Como una novela
sábado, 27 de outubro de 2007
O mundo dá voltas
vejam só, é para partilhar coisas como esta que criei este blog. e outras. obrigada cielo por mo teres enviado.
QUERO É VIVER - outro conselho do António e viva o Camané!
Quero É Viver
Humanos
Composição: António Variações
Vou viver
até quando eu não sei
que me importa o que serei
quero é viver
Amanhã, espero sempre um amanhã
e acredito que será
mais um prazer
e a vida é sempre uma curiosidade
que me desperta com a idade
interessa-me o que está para vir
a vida em mim é sempre uma certeza
que nasce da minha riqueza
do meu prazer em descobrir
encontrar, renovar, vou fugir ou repetir
vou viver,
até quando, eu não sei
que me importa o que serei
quero é viver
amanhã, espero sempre um amanhã
eacredito que será mais um prazer
a vida é sempre uma curiosidade
que me desperta com idade
interessa-me o que está para vir
a vida, em mim é sempre uma certeza
que nasce da minha riqueza
do meu prazer em descobrir
encontrar, renovar vou fugir ou repetir
vou viver
até quando eu não sei
que me importa o que serei
quero é viver,
amanhã, espero sempre um amanhã
e acredito que será mais um prazer
Um conselho do António para quem me visita
Muda de Vida
Humanos
Composição: António Variações
Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar
Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será te ti ou pensas que tens... que ser assim
Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver
Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
The Gift - Music
A noite passada os The Gift estiveram aqui em Valencia, uau! Os cabeças de cartaz eram os Pet Shop Boys, mas nós fomos para ver os The Gift. Encontrámos a Sónia na casa de banho e falamos um ratito (!) com ela. Foi fenomenal o concerto. Obrigada aos The Gift. Tirem uns minutinhos e escutem esta music!
quarta-feira, 24 de outubro de 2007
Hoje o céu está mais azul, eu sinto












